terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Isso é uma vergonha

Quem são e o que pensam os respeitados jornalistas brasileiros? A imprensa goza da confiança de mais de 50% da população brasileira, ou seja, para metade da população brasileira, se está publicado, deve ser verdade.

Durante as comemorações de virada de ano, o jornalista Boris Casoy soltou a seguinte frase no jornal da Band, após ser cumprimentado por dois garis: "Que merda... dois lixeiros desejando felicidades... do alto de suas vassouras... dois lixeiros... o mais baixo da escala do trabalho...". Foi traído por sua imprevidência, pois seu microfone estava ligado.

Sinceramente, não sei como se passa em São Paulo, mas no Rio de Janeiro, a Comlurb é um órgão respeitado e os garis não costumam ser somente competentes, mas trabalham sorridentes e bem-humorados e, de certa forma, são correspondidos pela população. Seu salário chega próximo aos mil reais, acima da mais baixa escala – não de trabalho, mas de remuneração –, que é o salário mínimo.

Esse episódio mostrou uma face de Casoy que não é exatamente escondida em seus discursos, um homem amargo e que tem como hábito ser do contra e distorcer fatos, e sua arrogância, visível em seu trabalho, transparece agora em sua vida pessoal. Do alto de sua tribuna, o jornalista mostra o que acha do trabalhador mais simples: um merda.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Só uma dor de cabeça

Dentro de alguns dias, Daniel Dantas não será mais considerado criminoso. O juiz Arnaldo Esteves Lima, do STJ, suspendeu todas as decisões tomadas a partir da operação Satiagraha, inclusive sua condenação. Esse é o primeiro passo para a anulação do processo e a liberação dos US$450 milhões que o banqueiro tem bloqueados nos Estados Unidos.

Dantas foi condenado a dez anos de prisão mais multa de R$12 milhões por corrupção ativa e está envolvido em processos de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Apesar de toda a polêmica gerada pela operação, a atitude da Polícia Federal foi louvável, como vem sendo em suas missões que deixaram de lado criminosos comuns e passaram a atacar as classes mais corruptas e impunes da sociedade. Há algum tempo, quadrilhas de classe média e alta vêm sendo desbaratadas e seus membros presos sem a habitual distinção entre pobres e ricos feita pelas polícias estaduais.

Mas de que isso adianta se, no fim, uma pessoa exerce um poder suficiente para jogar tudo pelo ralo? No final terá sido só uma grande dor de cabeça.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Dubai e as ilhas da fantasia

Dubai não tem petróleo, mas parecia uma terra paradisíaca para os bilionários, principalmente homens de negócio e dos esportes. A explosão imobiliária do emirado atraiu milhares de pessoas, em sua maioria investidores e trabalhadores de multinacionais que foram em busca de dinheiro. Pessoas que antes eram de classe média começaram comprar imóveis ainda em construção.

Ilhas artificiais foram criadas, um complexo chamado "The World" que lembra os filmes futuristas de ficção científica. Um hotel em pleno mar, um complexo imobiliário em forma de palmeiras e uma dívida de quase cem bilhões de dólares foram o resultado desse empreendimento que prometia preparar a região para o futuro.

Esqueceram-se os ricos imigrantes de que se tratava de um emirado com leis rígidas e pouco inteligíveis para nossa cultura ocidental. Depois da crise de 2008, as obras foram paralisadas e quem pôde fugiu de lá deixando para trás carros, imóveis e o sonho da Ilha da Fantasia. Quem não fugiu e não pagou as dívidas foi preso e condendado.



No final de novembro, Dubai anunciou uma moratória de US$59 bilhões. Algo normalmente não tão grave, já que a prática é comum e não costuma acarretar em maiores consequências para os países em longo prazo: eles usam o dinheiro economizado com o não-pagamento da dívida para seu desenvolvimento e a renegociam com um belo desconto, às custas de sua confiabilidade. Mas Dubai não tem indústria. Não tem petróleo. Não tem água. Tem concreto e areia.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A imprensa do Rio

O Rio de Janeiro vai de mal a pior em questão de imprensa. Antes, havia dois grandes jornais com linhas editoriais distintas, O Globo e o Jornal do Brasil. Ainda que ambos tivessem um viés mais direitista, o primeiro era mais dirigido à classe média e o segundo, mais elitista. Para as classes mais baixas, existia O Dia, que foi melhorando de qualidade até o golpe do lançamento do Extra, pela empresa do Roberto Marinho, que era vendido a um preço ridiculamente baixo (R$0,25, se não me engano).

Hoje, não há mais JB. Há, mas não há. Inclusive há boatos de que a edição impressa deixará de circular e o jornal vai ser publicado exclusivamente online. O nível do Dia teve de descer ao do Extra para fazer frente junto ao seu público. Sobrou apenas O Globo.

O que me incomoda no jornal não é somente a linha editorial baseada no denuncismo e na busca pela desordem institucional. É o sensacionalismo, que ultimamente vem se colocando no nível dos programas mais vulgares como o de José Luiz Datena e Wagner Montes. A imagem abaixo é um excerto da edição online de hoje de manhã. Se espremer, sai sangue.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caetano, ¿por qué no te callas?

O crepúsculo de uma carreira é realmente triste. Lá se vão vinte e cinco anos do último disco genial de Caetano Veloso, o "Velô", e uns dez de seu último bom trabalho autoral.

Desde então, o ex-compositor tem feito de tudo para aparecer na mídia da pior maneira possível. Suas declarações não são somente polêmicas, são preconceituosas e, provavelmente, são emitidas com o objetivo de gerar respostas como a que publico neste blog.

Logo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, Caetano fez questão de declarar que considerava Osama Bin Laden "um homem bonito" sem que ninguém lhe perguntasse sua opinião sobre o físico do terrorista saudita. Essa semana, conseguiu soltar duas pérolas: chamou Woody Allen de "careta" e "reacionário" e Lula de "analfabeto", "cafona" e "grosseiro".

Ninguém é obrigado a gostar de um cineasta, e eu mesmo acho Woddy Allen muito maçante, às vezes, mas não é possível negar sua genialidade. Quanto ao presidente, que mais uma vez é chamado de analfabeto, é preciso explicar para Caetano o significado dessa palavra. Lula teve, sim, uma educação tardia, ainda comete erros de português, mas jamais chegaria aonde chegou – da forma como chegou – se fosse analfabeto ou ignorante.

Criticar o presidente por sua atuação ou por seus atos no exercício do poder é uma coisa. Mas emitir comentários preconceituosos não é somente deselegante. É cafona e grosseiro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

E a saúde, Cabral?

Dia 23 de outubro, o Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro publicou o desvio de 10 milhões de reais do Fundo Estadual de Saúde para a Subsecretaria de Comunicação Social da Casa Civil com as assinaturas do secretário da Saúde Sérgio Côrtes e do subsecretário de comunicação da Casa Civil Ricardo Cota.

Não sei se a medida em si é ilegal, mas imoral, certamente. Não que não se possa gastar o que necessário em publicidade do governo, mas esse gasto precisa ser planejado e orientado, e não desviado da saúde na véspera do início de uma campanha eleitoral.

Assim, a saúde do Estado continua padecendo e, para o governador Sérgio Cabral, responsável pela manobra, parece que dez milhões a mais ou a menos não fazem tanta diferença. Até porque as UPAs, o carro-chefe de sua primeira campanha, não têm funcionado como a população esperava.

As eleições vêm aí e o povo tem mais uma chance de mostrar o que não quer na política. Resta ver se essas informações vão chegar a quem decide, de fato, o futuro do Estado do Rio de Janeiro.



Atualização em 30/10: O blog da Veja diz que Eduardo Paes pretende gastar R$ 120 milhões em propaganda nos próximos dois anos. Apenas 32 vezes mais do que seu antecessor Cesar Maia.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Não marque nada para segunda

Dia 30 de setembro, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei transfere quase todos os feriados para segunda-feira, mesmo os que caem às sextas. Essa prática já foi adotada no Rio de Janeiro pelo prefeito Marcello Alencar e prejudicou imensamente a sua população, tanto que foi abortada.

É verdade que um feriado no meio da semana atrapalha o comércio, mas com todos os feriados marcados para as segundas, é impossível para um profissional liberal, seja um professor ou um psicanalista, atender nesse dia, já que ninguém vai querer perder tantas sessões ou aulas. Os cursos podem esquecer o início da semana e abrir somente na terça-feira, pois as aulas de segunda estarão comprometidas.

Esse problema se estende às faculdades. Num semestre cheio de feriados, como o atual, as disciplinas da segunda-feira ficarão extremamente prejudicadas.

Será que os deputados pensaram nisso antes de aprovar essa lei absurda?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O que fazer com Polanski?

Ele é um dos maiores gênios do cinema de seu tempo, disso não há dúvida. De "Repulsion" até "O Pianista", passando por "O bebê de Rosemary", Roman Polanski coleciona clássicos, ganhou um Oscar e um Globo de Ouro e ainda tem muito trabalho para fazer.

Mas em 1977, dopou e estuprou uma adolescente de 13 anos durante uma sessão de fotos nos Estados Unidos. Ela sequer estava acordada para se defender ou dizer não para o diretor. Trinta e dois anos depois, finalmente conseguiram pegá-lo num país com acordo de extradição.

Estupro, assim como assassinato, é um crime hediondo e, por isso, não prescreve nos EUA. Nem deve. Nós, fãs do cinema, podemos lamentar sua prisão como uma perda para a cultura, mas como seres pensantes, não podemos achar que o caso deva ser simplesmente esquecido.

A própria vítima do estupro já pediu para que a acusação fosse retirada, pois não aguentava mais a exposição, mas a Justiça dos EUA disse que Polanski precisa se entregar e solicitar a anulação do caso.

Não sei dizer o que seria correto nesse caso, mas, mesmo trinta anos depois, um crime dessa natureza não pode ser simplesmente deixado de lado.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

E o que o Brasil tem com isso?

O pepino é maior do que o Brasil previa. Montagem: Flávio S. ArmonyAté agora não entendi qual foi a estratégia do Brasil ao receber o ex-presidente de Honduras Manuel Zelaya em sua embaixada no país. Esse não é o tipo de conflito em que nosso país costuma se meter, ainda mais quando parece não entender exatamente o que está se passando.

Zelaya foi eleito democraticamente para o cargo, mas excedeu sua autoridade quando convocou um plebiscito para a formação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Seu objetivo era reformar a Constituição do país de forma a permitir sua reeleição. Entretanto, o artigo 239, cláusula pétrea da Constituição hondurenha, proíbe a reeleição presidencial e prevê que aquele que tentar alterá-lo deve ser destituído imediatamente do cargo e perder a qualidade de cidadão, assim como os que o apoiarem.

A Corte Suprema do país ordenou a destituição de seu presidente e deixou a cargo das Forças Armadas a execução da ordem. O problema é que os exércitos latino-americanos são dados a truculências e, em vez de dar voz de prisão ou deixá-lo em prisão domiciliar, preferiu encapuzar e largar o ex-presidente na Costa Rica.

Agora Zelaya está de volta ao país e, por causa da diplomacia brasileira – normalmente tão eficiente –, surge uma nova crise: o que fazer com ele? Não dá para enviá-lo novamente para a Costa Rica. Soltá-lo em território hondurenho é um risco muito grande a sua vida. Talvez a saída seja uma negociação para, quem sabe, deixá-lo em prisão domiciliar. Aí eu pergunto: não seria melhor viver exilado na Costa Rica?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bingos: legalizando o crime organizado

Mais uma vez a Câmara dos Deputados demonstra estar indo na contramão do bom senso. Sua Comissão de Constituição e Justiça aprovou a legalização dos bingos e dos caça-níqueis sob a alegação de José Genoíno (PT-SP) de que "o jogo é da natureza humana". Pode ser, mas tenho dificuldade em enxergar o bem que uma medida como essa pode fazer pela sociedade.

Não somente porque conheço algumas histórias sobre pessoas que perderam tudo em máquinas de caça-níqueis, que são programadas para não deixar o jogador vencer e não têm como ser fiscalizadas nesse sentido, afinal sempre pode-se alegar que "joga quem quer".

O Ministério Púbilco já havia denunciado a ligação entre o bingo e o crime organizado. Montagem: Flávio S. ArmonyO grande problema é que bingos podem funcionar como grandes lavanderias de dinheiro ilegal, já que não precisam comprovar a fonte de seus ganhos, podendo justificar tudo como apostas de seus clientes. Assim, fica fácil para traficantes e políticos corruptos fazerem uso de seus recursos e provavelmente até pagarão impostos sobre eles.

Mas os governistas só querem saber do imposto que isso vai gerar. Afinal, quando o dinheiro entra, ninguém quer saber de onde ele vem. Resta agora torcer por um pouco de lucidez da Câmara e do Senado na votação do Projeto, o que parece cada vez mais difícil.