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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Congresso pode enterrar de vez a democracia

Mais uma vez o Parlamentarismo surge nas discussões da reforma política, agora sobo  nome de "semipresidencialismo". E quem está defendendo essa nova modalidade de sistema político? O Gilmar, aquele mesmo que processa quem lhe critica. Assim, melhor deixar o texto sem seu sobrenome.

O golpe foi dado para afastar o povo do poder, e segue ampliando a esfera de atuação do Congresso. Congresso esse que tem no objetivo desta reforma garantir a reeleição de cada um de seus membros. Daí a ideia de fazer o distritão e enfraquecer os partidos políticos de modo que não surjam novas lideranças no momento mais desacreditado da política brasileira.

E o que é a falta de democracia se não uma ditadura? Nem toda ditadura precisa ser sanguinária, basta que não haja acesso do povo às decisões da primeira esfera do poder. E quando se cria alguma ilusão de democracia, como com eleições, nem todos entedem o sistema político em que estão inseridos e talvez a maioria pense até que tem algum poder de decisão. Some-se a isso uma imprensa aliada ao grande capital (afinal eles precisam de dinheiro de seus anunciantes para sobreviver) e não teremos acesso a mais nada.

O futuro que nos espera: um presidente decorativo e um primeiro-ministro escolhido por um Congresso eleito por um sistema feito para perpetuar os atuais deputados no poder. E a classe média batendo palmas porque o PT não está mais no poder.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

O empresariado fez papel de bobo

Hoje, a colunista Monica Bergamo escreveu, na Folha de S.Paulo, que Temer está decepcionando os empresários que o apoiaram em seu golpe de Estado. Sua equipe afirma que o futuro e ilegítimo presidente não fará um "ministério de notáveis".

Pudera. Para viabilizar a derrubada de Dilma, Temer teve de prometer mundos e fundos para seus correligionários. Ministérios, diretorias e presidências de estatais e assim por diante, pois assim se faz política no Brasil. E, quando o veículo é uma ruptura institucional, o preço certamente aumenta.

Por isso alertei aos apoiadores: "Vocês sabem quem é Michel Temer?" E a resposta era sempre a mesma: "Não importa, precisamos tirar a Dilma". Temer, se empossado, fará um governo catastrófico, não é preciso ser uma Cassandra para saber. Ruim para o povo, ruim para os empresários. Mas será bom, muito bom para seus comparsas políticos e, possivelmente, para as petrolíferas estadunidenses que, há anos, estão de olho no pré-sal brasileiro, tendo em José Serra seu "representante comercial".

De fato, como dito na coluna, estão entregando a Presidência da República de bandeja para Lula em 2018.

quarta-feira, 16 de março de 2016

2016 x 1964: diferenças e semelhanças do momento político

O Brasil está na iminência de uma ruptura institucional. Como disse Ciro Gomes, vivemos um momento em que a maioria do Congresso está comprometida pela corrupção e o sistema não tem mecanismos para lidar com isso: não é possível punir todo o mundo.

Ao mesmo tempo, Dilma Roussef está no final de suas forças para resistir ao impeachment e tenta, com a nomeação de Lula, matar dois coelhos com uma cajadada só: impedir sua destituição e salvar o ex-presidente de um processo na justiça comum.

O Congresso está parado e até que o impeachment seja votado, não há intenção de pôr o motor em movimento. Essa situação não é nova: em 1964, o Brasil viveu uma situação do que Wanderley Guilherme dos Santos chamou de "paralisia decisória, ou seja, um colapso do sistema político". Nada é votado, nada é decidido.

Poucos anos antes, o Brasil vivera uma experiência malsucedida de parlamentarismo: o presidente João Goulart, empossado após a renúncia de Jânio Quadros, perdeu seus poderes de chefe de governo até 1963. O sistema foi derrotado em plebiscito por mais de 80% dos votantes. Atualmente, o STF está avaliando a legalidade de se adotar o sistema no Brasil.

Mesmo com essas semelhanças entre os dois momentos, é muito difícil imaginar que o desfecho seja minimamente parecido. Os militares já descartaram qualquer chance de intervenção e afirmaram que a Constituição não permite esse tipo de ação; Dilma não pretende renunciar; sobre Temer, Cunha e Calheiros, próximos na linha sucessória da Presidência, pesam acusações gravíssimas, assim como sobre Aécio Neves, o principal representante da oposição.

Uma saída pelo TSE, anulando a chapa PT-PMDB e, consequentemente, as eleições, provocaria a convocação de um novo pleito em 90 dias. Essa solução não é imediata e é muito perigosa: abre um precedente para que um sem-número de eleições sejam anuladas.

O que vem pela frente é impossível saber: o jogo político no Brasil nunca foi tão complexo e imprevisível.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Quanto é possível andar para trás?

Suspenderam o WhatsApp. Embora a proibição tenha durado poucas horas, ela foi efetiva e teve reflexos que provavelmente vão perdurar, como a substituição do aplicativo por alternativas como o Telegram, que ganhou 1,5 milhão de usuários brasileiros só nesse tempo.

A decisão foi descabida, pois o aplicativo é o principal meio de troca de mensagens via celular no Brasil. Foi como se a telefonia celular fosse proibida por algum motivo ou suspendessem os serviços de email por outro. Independentemente da motivação, prejudicar seus milhões de usuários no país é uma sandice.

Mas o fato reflete somente o período em que vivemos: a era do retrocesso. Com a falência do modelo atual de desenvolvimento e o Congresso mais conservador dos últimos tempos, além do clima de ódio extremista instaurados, o Brasil vive um momento tenso e marcha na direção errada.

Um projeto de lei que ainda tramita na Câmara tenta reduzir o direito das mulheres que engravidaram por consequência de um estupro de abortarem. Aprovaram, também, um Estatuto da Família que definia como tal a união entre homem e mulher, deixando de fora não somente os casais homoafetivos, mas os demais arranjos como avós que criam netos e tios que criam sobrinhos, por exemplo. Por todo o país, prefeituras proíbem o uso do Uber, que só continua fucionando por decisões dos tribunais regionais, sendo que seus motoristas são seguidamente agredidos por taxistas sem que nada seja apurado. "Cidadãos de bem" pedem a volta da ditadura militarA intolerância religiosa leva fanáticos cada vez mais numerosos a atacar praticantes e terreiros de religiões afro. Isso sem falar que o novo coordenador de saúde mental do Brasil é um ex-diretor de manicômio, que nada mais é do que um campo de concentração com práticas medievais de torturas. Aliás, o ministro que o indicou tem uma relação íntima com os planos de saúde, aos quais interessa o desmantelamento do SUS.

Vivemos um período conturbado em que a intolerância e o retrocesso determinam as novas regras. Mas, felizmente, a internet continua livre para propagar opiniões e análises como esta e organizar movimentos de resistências a estes absurdos. Bem, pelo menos por enquanto.


segunda-feira, 16 de março de 2015

A crise é institucional

Não há base para o impeachment da Dilma, isso é fato, pois não há nada que a vincule, nessa gestão, a atos criminosos. Entretanto, também não havia base para o impeachment de Fernando Collor, que acabou absolvido pelo STF. Para isso, ele tinha um testa-de-ferro que, afinal, não era tão de ferro assim.

Assim como em 1992, as manifestações ocorreram, algumas pedindo o fim da corrupção, outras o impeachment, ainda que, como a mídia internacional pontuou, quem foi às ruas era branco, mais velho e mais rico do que os de antes. Outros mais idiotas pediram intervenção militar. Tudo é muito democrático, mas o julgamento da presidente não vai ocorrer, não pelo motivo que falei acima: o PT ainda tem uma sólida base no Congresso que, apesar de não garantir a governabilidade, não vai permitir sequer que o pedido chegue a votação.



Mas a crise está aí e, em muitos aspectos, lembra a que precedeu a ditadura militar: o Brasil está entrando num estado de "paralisia decisória", como definiu Wanderley Guilherme dos Santos em seu livro "Sessenta e quatro: a anatomia da crise". Mas, diferentemente de outrora, os militares não estão dispostos a intervir e, dizem alguns pertencentes aos círculos, riem-se desta possibilidade.

O que pode acontecer é a governabilidade ficar tão comprometida e Dilma, com sua inabilidade política, piorar mais ainda a situação. Desta forma não lhe restará muita saída senão renunciar. E, como resultado desta crise institucional, entregaremos o Brasil de mão beijada para o PMDB, com Michel Temer presidente, Eduardo Cunha presidente da Câmara de Deputados, Renan Calheiros presidente do Senado, maioria no Congresso, maior número de governadores e prefeitos.

Entretanto, esta é uma visão catastrofista. Dilma, com sua personalidade, é capaz de passar quatro anos dando murro em ponta de faca. Ou vai colocar o rabo entre as pernas e chamar Lula para fazer o papel que deveria ser da Casa Civil de negociar com o Congresso.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Coerência no voto

Marina diz que, se eleita, terá uma nova forma de fazer política, chamando especialistas de todos os partidos nas devidas áreas para ter o melhor dos mundos. Isso não é somente uma utopia, mas é de uma ingenuidade infantil. Política não é como administrar uma empresa, é necessário fazer acordos.

Dois presidentes tentaram governar sem alianças: Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello. Não preciso dizer aqui o que aconteceu com eles. Tanto que o próprio Beto Albuquerque, seu candidato a vice, falou que ninguém governa sem o PMDB. O problema é que o PMDB tem várias vertentes: estamos falando do Simon ou do Sarney? Dos dois, evidentemente.


Então, se você vai votar na Marina, faça-lhe um favor: vote nos candidatos do PSB para deputado federal e senador. Se você quer acabar com a politicagem e com o toma-lá-dá-cá, seja coerente no seu voto.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O voto no mal menor

Não há boas opções para a Presidência da República ou para o Governo do Rio de Janeiro. É simples assim. As escolhas deverão ser baseadas no menor prejuízo, com vistas a 2018, torcendo para novos atores surgirem no cenário político nacional.

Dilma Roussef conseguiu decepcionar até adversários com sua incapacidade administrativa e aparelhou o Estado em todos os níveis. Mas o PT lançou um excelente programa de distribuição de renda e manteve o patrimônio nacional, freando as privatizações. Reconstruiu a Petrobras e agora está ajudando a colocar a empresa em maus lençóis. Isso sem falar no mensalão.

Pesam contra Aécio Neves acusações de manipular a imprensa de Minas Gerais, acusações atribuídas a sua ex-mulher, Andréa Falcão e por ela desmentidas, problemas com aeroportos, o fato de o PSDB ter vendido parte do patrimônio nacional e ainda deixar o Brasil com uma dívida de US$30 bilhões para o governo Lula pagar, acusações de desvio de verbas na privatização, entre outras.

Eduardo Campos, o azarão, vem sendo chamado de representante do neocoronelismo e tem Marina Silva como vice, por mais incoerente que isso seja, que é também uma defensora da privatização, embora ninguém se dê conta disso.

Para o Rio de Janeiro, fico com a imagem que Tico Santa Cruz, que colocava os candidatos como Freddy Krueger, Darth Vader, Jason e o Curinga: fica difícil até escolher o mal menor. Sobre todos pesam acusações graves, capazes de anular a eleição caso haja alguma condenação. Honestamente não sei nem por qual começar, deixo a cargo dos leitores buscar acusações sobre Crivella, Garotinho, Lindbergh e Pezão.



Enfim, o eleitor vai precisar pesar bem seus valores para escolher seus candidatos. E se lembrar de que o voto nulo não anula uma eleição, mas delega sua escolha para os demais.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Salada política

Romário passou todo o seu mandato criticando a forma como a Copa do Mundo estava sendo conduzida. Agora ele é aliado do PT e deve perder seus eleitores que o consideravam uma alternativa à mesmice. O PSoL tinha um candidato à presidência que vinha conquistando simpatia dos eleitores. Agora ele é candidato ao governo do Amapá e, em seu lugar, se apresentou a infame Luciana Genro. Cesar Maia era candidato ao governo do Rio, para alguns, se apresentando como uma opção menos ruim do que os quatro líderes nas pesquisas. Agora acha que pode fazer frente a Romário e decidiu candidatar-se ao Senado com o apoio do PMDB de Luiz Fernando Pezão e de seu desafeto Eduardo Paes. Mas Maia vai apoiar Aécio Neves para a presidência, e não Dilma, candidata oficialmente apoiada pelo partido dominante da cena fluminense.

A política é assim: uma salada mista em que a promiscuidade não poupa quase ninguém. Em época de eleição, a coisa piora, pois a disputa é por tempo de televisão, subidas em palanques, apoios e imagem. Uma vez formado o cenário, os partidos se recombinam pela maioria no Congresso, por ministérios e verba para os projetos de seus deputados.

Isso significa que, por mais que tenhamos uma radiografia do momento político atual, o futuro não é totalmente previsível, pois depende de barganhas, muitas vezes financeiras, e acordos. E os políticos, se querem ter alguma chance nas eleições, precisam se juntar a adversários e tomar algumas atitudes impopulares.

Não gostou? Existem botões de branco e nulo na urna eletrônica. Mas aí só vão valer as opiniões dos outros e você, achando que protestou, vai ter ficado calado.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Não há líderes ou somos todos líderes

Eduardo Paes diz que quer se reunir com os líderes do movimento. Não há lideres, sabe ele muito bem, e se utiliza disso para tentar esvaziar a importância das manifestações quando é justamente isso que as torna tão importantes.

Quando há líderes, o jogo é fácil: negocia-se com umas três ou quatro cabeças e se arrefece o movimento. Quando as reivindicações são pontuais, mais fácil ainda: chega-se a um meio-termo. Mas não há líderes nem reivindicações pontuais. E essa é a beleza da coisa.


O que os ditos especialistas ainda não entenderam é como funcionam as redes sociais. Há multiplicadores, e aderentes, que frequentemente se tornam multiplicadores. Somos todos líderes.

E a grande dificuldade nisso tudo é entender o que está sendo reivindicado. Não adianta perguntar, ler os cartazes. É preciso se meter nas redes, procurar as mensagens, entender o que está deixando as pessoas mais indignadas. E os pedidos são de reformas estruturais, não de ações pontuais.

Não sei se os assessores da presidente, dos governadores e dos prefeitos estão preparados para isso. É impossível dizer para onde vai essa multidão que sai às ruas pedindo mudanças. O movimento pode crescer ou esvaziar, pode seguir forte até a Copa do Mundo, até as Olimpíadas, ou as pessoas podem cansar e se conformar com pequenas ações dos mandatários. Cabe agora observar quem tem a melhor estratégia.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O que a Venezuela tem a oferecer ao povo?

Chávez, durante muito tempo, foi o melhor que a Venezuela pôde ter. O país sofre com uma das maiores desigualdades sociais do planeta, onde os ricos são poucos e muito ricos e os pobres são muitos e miseráveis. A classe média é pequena e pouco representativa.

O ditador governou contra as elites, mas não necessariamente pelo povo. Tratou de perpetuar-se no poder guiando o rebanho com o mínimo: saúde pública, um princípio de distribuição de renda que proporcionou o crescimento, ou mesmo surgimento, de uma nova classe média. Entrou no vácuo político de um país que fora mais um quintal dos Estados Unidos, um provedor de petróleo como seus parceiros no Oriente Médio.

A oposição venezuelana, até há pouco, era formada pelas elites que queriam um governo em causa própria, voltado para a exportação de seu petróleo de baixa qualidade e a manutenção das riquezas nas mãos de poucos. Uma nova oposição surgiu durante o governo Chávez, mas não sabemos ainda o que ela quer e para quem ela pretende governar.


Agora Chávez está no fim de sua vida e, provavelmente, tentará fazer com seu país o que Fidel fez com Cuba. Mas a história dos dois países é diferente e alguma oposição chegará no poder algum dia. O que podemos esperar é que Chávez não tivesse razão, que um outro governo possa dar ao povo o que o povo precisa.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O que a questão dos royalties expõe

Faltou habilidade política aos deputados do Rio de Janeiro, sobrou confiança em Dilma e os royalties vão-se embora do estado. Além do rombo que ficará daqui para diante no orçamento, a questão dos royalties expõe um pouco mais.

A começar, o excessivo poder que estados pequenos e médios têm na Câmara de Deputados. A desproporção do valor do voto entre os eleitores do Sudeste e do Norte já foi tema de artigo aqui, inclusive com sugestões de mudanças que nunca acontecerão. Dessa forma, os estados mais populosos como Rio e São Paulo ficam à mercê da vontade dos demais, que não raro se unem para conseguir benefícios.

Mas algo que sequer foi discutido é o impacto ambiental da exploração de petróleo do pré-sal na costa dos estados produtores. Em primeiro lugar, o óleo está a 400km da costa brasileira e, considerando que a Corrente do Brasil aponta para baixo, os estados do Sul do Brasil podem sair muito prejudicados por um eventual vazamento. Contudo, o óleo, provavelmente, iria parar na Antártida, causando um grave desastre ecológico.

Mas essa não era a questão. Foi somente uma disputa de força, sem argumentos lógicos razoáveis ou pensamento no bem maior. Não há bom senso nas discussões da Câmara e do Senado quando se trata de uma luta dos estados por vantagens. Cada um só quer saber do seu, e assim, ganha quem faz os melhores acordos. Perdem o país e o povo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Petralhas e privatas

Terminei de ler o livro "A privataria tucana", em que o autor Amaury Ribeiro Jr. prova com documentos todo o histórico de corrupção, suborno, desvio e lavagem de dinheiro que rolou durante a época das privatizações no governo Fernando Henrique. Do mesmo modo como não pegaram o Lula, nada respinga no seu antecessor, mas José Serra e sua família são completamente comprometidos pelos papéis reproduzidos no livro, especialmente em sua relação com o banqueiro Daniel Dantas. O esquema é muito sofisticado, envolvendo criação de empresas, mudança de razão social, falências, Miami, Ilhas Virgens e território nacional. Difícil rastrear, mas não impossível, tanto que o livro foi feito. E que nome aparece no esquema de lavagem? O de Marcos Valério.

Fiquei impressionado. Vi que, perto do PSDB, o PT parece um bando de crianças numa loja de doces fechada, lambuzando tudo e fazendo um estardalhaço, mesmo não querendo ser descoberto. Pegaram, julgaram e condenaram, para o bem do país.

E os tucanos? Quando serão pegos? A condenação dos petistas me deu esperança de que, mais cedo ou mais tarde, consigamos colocar no banco dos réus aqueles que merecem. Mas tem uma raposa que jamais será capturada e responde pelo nome de José Sarney: este sequer será investigado, e sabem por quê?

Porque todos precisam dele. O PMDB é o grande garantidor da governabilidade e sempre vai aderir ao partido que estiver no poder. Por isso, nunca é bom bater de frente com eles, pois quando chegar a sua vez de governar, eles estarão lá para dizer "sim senhor" e recolher sua fatia.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Lula e o que há de pior

Foi com real decepção que recebi a notícia de que Lula estava se unindo a Paulo Maluf pela candidatura de Fernando Haddad. Por mais que eu entenda que a política nem sempre parece coerente e que se reorganiza num piscar de olhos, dessa vez foi demais. Maluf representa tudo aquilo de que São Paulo se esforçou durante décadas para se livrar: a direita mais corrupta, mesquinha, populista e reacionária do Brasil.

Maluf tem um passado vergonhoso e um presente mais ainda: além de ser réu em diversos processos, foi um dos homens fortes da ditadura e acabou alijado da política paulista em prol de uma direita mais liberal representada pelo PSDB de Serra e Alckmin.

Lula dá um tiro no pé fazendo algo que nem seus adversários tiveram coragem de fazer: aliar-se ao quase-morto político representante do pior que o Brasil já produziu tanto em termos éticos como político-administrativos.


Talvez isso não chegue a prejudicar a inabalável imagem do ex-presidente. Mas certamente vai tirar votos dos petistas menos convictos (que não são poucos) em São Paulo e ajuda a queimar Fernando Haddad por um bom tempo. Haddad, que foi péssimo Ministro da  Educação, já não tinha chance nessa eleição. Agora ele está morto. Que bom!

sexta-feira, 2 de março de 2012

A incoerência carioca

O calor acima dos 40°C parece ter fritado de vez os miolos dos cariocas. Outro dia tivemos um delírio coletivo de que Cesar Maia (DEM) e Anthony Garotinho (PR) estavam se unindo pela candidatura de seus filhos Rodrigo e Clarissa à prefeitura do Rio de Janeiro.

Os impopulares Maia e Garotinho ocuparam, respectivamente, a prefeitura do Rio e governo do Estado. O primeiro viu sua aprovação despencar enquanto ocupava o cargo e o segundo enquanto sua esposa, Rosinha, fazia uma gestão desastrosa – especialmente em termos de segurança pública – no cargo em que o sucedera. Rodrigo Maia, por sua vez, é um bem votado, mas inexpressivo, deputado federal. Não é bom orador, mas funciona para a Câmara, pois articula bem nos meios políticos. Nada a ver com os eleitores.

Talvez a única semelhança que Maia e Garotinho tenham, além da impopularidade, seja o fato de ambos fazerem oposição ao PT, Maia de forma mais discreta e Garotinho comparando Dilma a Hitler.

Do outro lado, Eduardo Paes (PMDB) já faz uma gestão muito ruim, pelo menos em termos de saúde e educação, e desviou recursos para a publicidade, que superaram em 2.450% a verba da gestão anterior, de Cesar Maia.

Marcelo Freixo, do PSoL, ainda não definiu se será candidato. O deputado vem sendo ameaçado de morte devido ao combate às milícias do Rio de Janeiro e isso pode pesar na decisão. Se Freixo é excelente no Legislativo, paira a dúvida se ele também o será frente ao Executivo do município. Uma coisa é fato: coragem não vai lhe faltar. Mas será que a competência virá junto?

Mais uma vez, o eleitor carioca encontra-se numa encruzilhada entre o velho e fracassado, o atual e despreocupado, e o novo e incógnito. Mas, pelo que tudo indica, teremos mais quatro anos de Duda Paes, que contou com 98 milhões de reais da máquina administrativa para fazer sua pré-campanha.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O mesmo banco, a mesma praça...

Serra declarou que será candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSDB. Conta, para isso, com o apoio do desafeto Geraldo Alckmin. Mas o eleitor paulistano deve ficar atento ao candidato à vice-prefeitura, já que o velho tucano ainda não desistiu de disputar a Presidência da República e deve se meter em mais um embate com Aécio Neves daqui a dois anos.

Do outro lado, Fernando Haddad, ex-péssimo ministro da Educação dos governos Lula e Dilma, deverá ser o candidato do PT, que por pouco não contou com o apoio do recém-refundado PSD, de Gilberto Kassab. Vitória política de Marta Suplicy, adversária do novo social-democrático desde a época da Frente Liberal, que jogou o atual prefeito no colo do PSDB para fechar a aliança tucana-demo-kassabista, mantendo unida a direita liberal do estado de São Paulo.

Ambos os candidatos precisam vencer para continuar no cenário político nacional e, quem sabe, crescer politicamente para alcançar o Palácio do Planalto. Serra tem em 2014 sua última chance e Dilma, se reeleita, precisará indicar um sucessor dentro de seu partido, possível aspiração de Haddad.

Ou seja, este ano, o eleitor paulistano está entre duas opções desastrosas. Entre o inescrupuloso Serra e o incompetente Haddad, a cidade de São Paulo promete passar mais quatro anos no marasmo daquela que deveria ter a prefeitura mais forte do país, mas foi transformada em trampolim político para quem quer voos mais altos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Palocci: entre o ilegal e o imoral

Pode ser que Palocci esteja falando a verdade. Não há nenhum indício de que seu enriquecimento tenha sido ilícito, embora a velocidade com que isso aconteceu possa suscitar suspeitas. Mas o ilegal e o imoral têm muitas nuances em comum, especialmente dentro da política.

Palocci, ao deixar o governo Lula, virou um consultor valioso, assim como Gustavo Franco e André Lara Resende. Após deixarem o governo, os ex-presidentes do Banco Central cumpriram a quarentena prevista e aumentaram seus preços a partir do conhecimento adquirido no tempo de governo – atitude duramente criticada pelo Partido dos Trabalhadores. A diferença é que nenhum dos dois voltou para a política.

O ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil fez pior. Enriqueceu, provavelmente fez contratos com cláusula de sigilo, e achou normal voltar para a política. Imoral. Palocci deveria ter feito uma escolha entre a vida pública e uma vida privada luxuosa. Quis ficar com os dois, não deu.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Democracia árabe?

As revoltas populares estão pipocando no mundo árabe como uma bola de pingue-pongue solta numa sala com ratoeiras com bolinhas iguais. A demanda por democracia nada mais é do que uma demanda por poder, essa que todos os povos têm, mas nem sempre têm a oportunidade de fazer valer, ou mesmo de expressá-la.

Tunísia e Egito derrubaram seus ditadores. Enquanto a Tunísia formou um governo de coalizão com os líderes de todos os partidos, o Egito está nas mãos dos militares que prometem devolver o poder ao povo em poucos meses enquanto insistem que a vida volte ao normal.

O que há de novo nisso tudo? Nada. Revoluções são constantes no mundo árabe, com trocas de ditadores, de doutrinas, de ideologias. Até o Irã, que não é árabe, mas sofre os mesmos tipos de abalo, já teve sua revolução, que criou a teocracia do Aiatolá Khomeini. Democracia é outra coisa.

O mundo árabe jamais conheceu um regime democrático. Quando a Faixa de Gaza ganhou autonomia, sua população elegeu, sabe-se lá em que bases, o Hamas para governar a região. Nada foi construído, mas os líderes da oposição, o Fatah, foram presos ou mortos e iniciou-se um ataque a Israel com chuvas diárias de foguetes sobre a sua população.

O Egito tem, em seu território, um grupo representativo chamado Irmãos Muçulmanos, ou Irmandade Muçulmana, como é conhecido em português. Hoje eles representam 20% do parlamento e seus métodos são conhecidos historicamente pela destruição e assassinatos – políticos ou não, pois qualquer estrangeiro ou não-muçulmano é considerado inimigo. É possível ter uma ideia do que vai acontecer caso esse grupo seja democraticamente eleito para representar o povo egípcio.

 
Portanto é preciso olhar com parcimônia para os desdobramentos dos acontecimentos na Tunísia e no Egito, que já refletem em outros países como Bahrein, Iêmen e, ainda de leve, no Irã. Afinal, um governo democrático não é aquele que representa a maioria, mas aquele no qual toda a população se faz representar.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Liberdade de imprensa: uma proposta cínica

Quem aqui ouviu falar sobre Maria Rita Kehl? Uma respeitada psicanalista, ex-colunista do Estado de São Paulo que resolveu escrever o que pensa. Seu artigo pode ser sintetizado por uma frase acerca dos emails veiculados pelas ditas elites na internet: "O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos". Resultado? A jornalista foi demitida do jornal, o mesmo jornal que considera que a liberdade de imprensa está ameaçada.

Num episódio oposto, o senador tucano eleito por São Paulo recusou-se a dar entrevista para veículos de comunicação que divergiam de sua opinião política por serem ligados ao PT.


Muito já foi dito e demonstrado sobre a imprensa brasileira. Sabemos que poucas famílias dominam a comunicação no Brasil (quatro segundo a revista CartaCapital e nove ou dez segundo Lula) e que sua orientação política sempre foi ligada à direita, com todas as metamorfoses que a direita sofreu (para entender o que isso significa, vale ler Anthony Giddens – Para além da direita e da esquerda – e Norberto Bobbio – Direita e esquerda). Então, que liberdade é essa que mostra apenas um dos lados, que não permite um equilíbrio entre ideologias, que dá voz para apenas quatro (ou nove ou dez) famílias brasileiras e demite quem ousa falar expor outras ideias?

Sou a favor da liberdade de imprensa – antes que se diga o contrário – ampla e irrestrita. Em vez dos jornalistas seguirem a opinião e a doutrina de seus editores, a eles deve ser permitido falar sob seu próprio ponto de vista sem que seus empregos estejam em risco. Defendo que, para se demitir um jornalista, seja necessário abrir uma sindicância com membros internos e externos ao veículo para se ter certeza de que essa demissão não teve motivação política ou, como disse Maria Rita Kehl, originado-se a partir de um "delito de opinião".

Assim todos os pontos de vista serão expostos para todas as pessoas por todos os meios. Assim os jornalistas poderão gozar dessa liberdade de imprensa da qual somente os donos dos veículos gozam. Faz sentido?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

1989

Lula tem aparelho de som. Collor não. Lula odeia negros e quis abortar sua filha. Collor massacrou Lula no último debate de candidatos à Presidência da República. Dilma mata criancinhas. Dilma é terrorista. Dilma é a favor do aborto.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Ingênuo fui eu por achar que o Brasil havia superado os métodos sujos que a grande imprensa, o grupo apelidado por GAFE (Globo, Abril, Folha e Estado), perceberia que não há mais clima para esse tipo de difamação na democracia que o Brasil conquistou nos últimos vinte anos.

Hoje li um artigo do Mainardi dizendo que Dilma transformará o Brasil numa loja falida de artigos de R$1,99. O Globo, semana passada, mais uma vez, usou dois pesos e duas medidas sobre o casamento homossexual. Quando foi Dilma a declarar, o jornal publicou que ela era contra o casamento gay, mas a favor da união civil de pessoas do mesmo sexo, "que ela diz ser diferente". Quando Serra disse a mesma coisa, o Globo simplesmente explicou a diferença.

A central de boatos, desmentidos com provas, circula na internet. Quem as divulga são os eleitores de Serra – esses, muitas vezes, sem saber que se tratam de mentiras. Esses boatos são gerados por uma direita fascista, velha conhecida do nosso país, que apoiou o golpe militar em todas as suas fases.

E o que dizer do fiasco da bola de papel? Se a atitude dos mata-mosquitos demitidos por Serra quando era ministro foi errada ao tentar agredir o candidato, não há nem questão, é evidente. Mas fazer uma tomografia por causa de uma bola de papel após um telefonema? E a Globo tentando mostrar um rolo de fita adesiva invisível durante sete minutos, com o depoimento de um perito, no mínimo, suspeito? No mesmo dia, usou 18 segundos para falar do recorde de baixa do desemprego no país.

E vem a imprensa, dizer que teme por sua liberdade. A mesma liberdade que elegeu Collor baseada em factóides e que tenta retirar alguns pontos de Dilma na mesma moeda. Sorte que hoje existe a internet e já não é tão fácil inventar histórias. Essa é a verdadeira liberdade de imprensa.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O PSOL e o Groucho-Marxismo

Todos nós que vimos os debates presidenciais do primeiro turno percebemos a falta de seriedade nas propostas do candidato do PSOL Plínio de Arruda Sampaio. Suas palavras propunham uma total subversão da ordem, ignorando preceitos constitucionais e pregando medidas que só seriam possíveis através de um levante armado.

Deu graça aos debates, isso é fato, mas não a mesma graça que deu, por exemplo, Marina Silva, com um discurso ponderado e coerente. Plínio deu a graça do palhaço, assim como Tiririca – mais bem sucedido –, fazendo um papel ridículo e professando disparates impraticáveis diante de milhões de pessoas.

O Partido Socialismo e Liberdade surgiu em 2004 de uma dissidência do Partido dos Trabalhadores que achava seu governo muito à direita do esperado, seguindo a cartilha neoliberal cartesianamente ditada por Fernando Henrique Cardoso, antecessor de Lula.

Muitos de seus membros haviam sido expulsos do PT por votar de forma diversa à orientação do partido, o que é considerado uma traição na política e iniciaram uma feroz oposição, à esquerda do PT. Expoente do novo PSOL, Heloísa Helena candidatou-se à Presidência da República em 2006, obtendo uma votação expressiva.

O partido pretendia ser uma alternativa, composto por nomes sérios e consagrados, como os de Chico Alencar e Luciana Genro, para citar dois. Mas a escolha de seu candidato à Presidência em 2010 deixou claro que não tem a intenção de crescer, de apresentar uma proposta séria, uma opção à esquerda para o país.

É uma nova modalidade de marxismo: o Groucho-Marxismo.