quinta-feira, 16 de abril de 2009

O fim do ensino médio em Minas

Os adolescentes entram cada vez mais jovens na universidade e, muitas vezes, mal têm a capacidade de decidir o que querem fazer. Alguns, desde criança, têm um sonho e, desse sonho, advém uma determinação e uma certeza da carreira que querem na vida. Outros precisam provar um pouco de cada coisa antes de decidir que área querem seguir. O ensino médio é o momento ideal para se saber, pelo menos, se sua afinidade é com ciências humanas, biológicas ou exatas.

O governo de Minas Gerais decidiu que um adolescente de 17 anos é muito velho para decidir o que quer. Agora, essa decisão deverá ser tomada aos 15! Ao ser aprovado no primeiro ano do ensino médio, o aluno deve escolher qual área seguir. Se escolher humanas, não terá aula de biologia, química ou física. Se escolher exatas, não terá história, geografia ou língua estrangeira.

Algo que aprendi ainda no ginásio (na época era esse o nome do segundo ciclo do ensino fundamental) é que um dos grandes perigos da modernidade – ou um de seus piores efeitos colaterais – era a alienação: o trabalhador ficava tão especializado que era incapaz de fazer outras coisas. Algo como Chaplin apertando parafusos.

Minas tenta deixar seus habitantes ignorantes. Tenta antecipar para a adolescência uma especialização que só é necessária na faculdade. Já hoje vemos com frequência engenheiros que não sabem escrever e jornalistas que mal fazem contas. Imagine o mundo que teremos se essa lei pegar em todo o país?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Duda Paes paga as dívidas de campanha

A construção da linha 4 do metrô é só um pretexto, assim como o estacionamento subterrâneo na orla e a construção das 40 UPAs. As medidas adotadas por Eduardo Paes, em sua grande maioria, envolvem obras e construções. Até o choque de ordem, por algum motivo, tem a participação da Secretaria Municipal de Obras.

Embora o metrô seja de responsabilidade do governo do estado, governador e prefeito são do mesmo partido e administram juntos. Nada se perguntou sobre a viabilidade do projeto à vencedora do consórcio – o trecho original partia de Botafogo –, mas ja há um projeto de lei para permitir a construção nos terrenos remanescentes do metrô, algo que hoje é proibido.

Isso sem falar nas casas que foram demolidas no Leblon com o aval da prefeitura. Para quem não se lembra, quando candidato, Eduardo Paes disse ser necessário fazer um estudo de impacto da vizinhança antes da demolição de prédios tutelados pelas Apacs. A Associação de Moradores do Leblon reclama justamente que o bairro não tem infraestrutura para suportar mais prédios.

Agora essa história de estacionamento subterrâneo em Ipanema. Para início de conversa, a obra vai instaurar o caos no bairro, algo que já é familiar desde os tempos do Rio Cidade – que nos brindou com um obelisco ridículo emergindo do meio da rua. O custo da obra deve ser altíssimo e o benefício certamente será das empreiteras. Mais um espaço público será privatizado e o preço do estacionamento vai disparar.

Por um lado vemos que Paes é um homem de palavra: não descumprirá seus compromissos firmados com os financiadores de sua campanha. Por outro...

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Questão de proporcionalidade

Quando me disseram que Cristovam Buarque estava doente da cabeça, achei que era intriga da oposição, mas agora tenho minhas dúvidas. Contrariando a pequena expectativa criada pelo projeto do saudoso Clodovil Hernandes, que propunha a redução à metade do número de deputados federais, o ex-governador propõe a criação de sete novas vagas da Câmara para representar brasileiros que vivem no exterior.

Qual é o sentido prático dessa medida? Cristovam argumenta apenas que não há representação na Câmara para expatriados e que esse sistema existe em outros países. Segundo o TSE, há pouco mais de 130 mil eleitores registrados no exterior dentre três milhões de brasileiros que moram fora do país. Para se ter uma idéia, um partido precisa de mais de 400 mil votos para eleger um deputado federal em São Paulo.

O problema que deve ser resolvido é o da proporcionalidade. Se o maior estado do país precisa de tantos votos por deputado, Roraima, que tem menos de 250 mil eleitores precisa de menos de trinta mil votos por deputado. Isso quer dizer, na prática, que o voto de um roraimense vale o mesmo que o voto de treze eleitores paulistas.

Será que Cristovam está mesmo preocupado com representação?

quinta-feira, 26 de março de 2009

Vou passar cerol na mão! Vou sim!

Cerol é uma mistura de cola com vidro moído que as crianças (às vezes nem tão crianças) passam na linha da pipa para guerrear e cortar linhas de outras pipas. Mas nem sempre o alvo atingido é o planejado. Muitas vezes, motociclistas morrem ou têm seus pescoços cortados quando cruzam uma via com uma linha dessas atravessada.

O deputado estadual Alessandro Calazans, do PMN, apresentou o projeto de lei no 576/2003 que libera e regulamenta o uso dessa arma por adolescentes com dezesseis anos ou mais com a justificativa de favorecer os fabricantes de cerol, que estariam sendo prejudicadas pela proibição.

É claro que os motociclistas estão protestando através dos meios cabíveis tentando convencer os deputados a reprovarem a lei que, cá entre nós, não tem cabimento. A eles, recomenda-se o uso de antenas que cortem as linhas no guidom da motocicleta. Vejam só o que achei no Google, com mais 11.600 resultados:

  • Mulher morre após ser degolada por linha com cerol em Sorocaba (SP)
  • Motoqueiro morre por linha com cerol
  • Motociclista morre degolado por linha com cerol em MS
  • Homem morre na BR-116 atingido por linha com cerol

  • Só para constar, o deputado Calazans já foi envolvido em diversos processos. Na Alerj, quase foi cassado em 2004 por favorecer um acusado na CPI da Loterj, mas permaneceu no cargo e foi reeleito ano passado.

    Atualização em 30/03: Após enviar um email para o deputado reclamando do projeto, recebi a seguinte resposta: "A legislação atual não atingiu seu objetivo, as pessoas não pararam de usar o cerol e os acidentes continuam, esta nova lei irá regulamentar e facilitar a fiscalização, que hoje é nenhuma". Pergunto por que motivo haverá fiscalização se a lei passar. Não basta aumentar a fiscalização hoje e prender quem produz esse componente?

    terça-feira, 24 de março de 2009

    Guerra dos Tabajaras: quem são os responsáveis?

    A cena já foi mais comum na cidade, mas não deixa de ser surpreendente. Assim, tão próximo à minha casa, foi a primeira vez que vi. Saindo do metrô da Siqueira Campos pela Figueiredo de Magalhães, vi os carros voltando na contramão da Rua Tonelero para evitar o fogo cruzado que se estabeleceu na esquina com a Rua Santa Clara. Felizmente a polícia agiu de forma exemplar, capturando a maioria dos traficantes, matando outros poucos e sem maiores danos à população civil.

    A guerra dos Tabajaras acontece porque traficantes da Rocinha querem tomar o morro que separa Copacabana de Botafogo. E o que nós temos com isso? Bem, o fato é que é a Zona Sul do Rio é o mercado consumidor de drogas e a ladeira dos Tabajaras fica numa situação estratégica de distribuição.

    E de quem é a culpa, afinal? É claro que a política de combate às drogas é desastrosa, focando muito mais na parte coercitiva do que educativa. Mas, no final, a responsabilidade é nossa, da classe média que mora nos bairros nobres da cidade, que acha legal dividir um baseado ou oferecer uma carreirinha de pó. Tudo isso para depois sair de camiseta branca na rua ou criticar nossos governantes.

    segunda-feira, 9 de março de 2009

    Upa, upa! Mas não caia do cavalo!

    Semana passada, o governador do Rio de Janeiro anunciou que fecharia a ortopedia das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de todo o Estado. As UPAs foram a principal obra de Cabral e também a principal promessa de campanha do prefeito Eduardo Paes, que se comprometeu a construir quarenta delas.

    A questão foi posta ainda nos debates entre os candidatos a prefeito: de que adianta construir se não é possível contratar? O problema é que com os salários medíocres pagos aos médicos, eles se recusam a trabalhar para o Estado. Das 80 vagas abertas pelo governo, apenas 22 foram preenchidas. Podemos imaginar a qualidade e a satisfação dos médicos que trabalham por tão pouco, certo? Mas com tanto dinheiro que recebeu das empreiteiras, o prefeito é bem capaz de cumprir a promessa.

    Então, é melhor que seus eleitores tomem cuidado para não cair do cavalo. Podem faltar médicos para cuidar dos traumas.

    quarta-feira, 4 de março de 2009

    Guerra aérea

    Está declarada a guerra entre Sérgio Cabral Filho, o governador almofadinha, e a Agência Nacional de Aviação Civil, aquela que não consegue organizar o tráfego aéreo brasileiro. Explico a situação: desde 2005, o aeroporto Santos Dumont só podia operar na ponte aérea, de acordo com decreto publicado pelo antigo Departamento de Aviação Civil, substituído pela ANAC.

    Por causa dessa portaria, o aeroporto, que tem capacidade para operar 23 vôos por hora, estava funcionando somente com quinze. Ora, quem mora no Rio de Janeiro sabe o transtorno que é para chegar no aeroporto do Galeão (Tom Jobim), que fica na Ilha do Governador. Na hora do rush, a linha vermelha fica impossível e é necessário sair de casa com horas de antecedência para não perder o voo.

    Por que não, então, aproveitar a capacidade do SDU? Porque o governador está tentando "vender" o Galeão, sem levar em consideração o que é melhor para a população da cidade. Seu medo é que parte do movimento mude de aeroporto, enfraquecendo a concorrência pela concessão do GIG – que, aliás, fica parecendo uma rodoviária em dias de pico.

    Segundo o jornal O Globo, Cabralzinho "declarou guerra à Agência Nacional de Aviação Civl (...) e prometeu retaliar com elevação de impostos" porque a nova companhia aérea, Azul, ganhou um terminal, aumentando a concorrência.

    Será que Cabral está perdendo alguma coisa nessa jogada? O que as outras companhias aéreas têm a oferecer que não aparece por aí?

    quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

    Exposição eleitoreira?

    Hoje o Democratas e o PSDB entram com uma ação contra Lula e Dilma Roussef devido à "exposição diuturna e ostensiva do nome da pré-candidata" com "viés nitidamente eleitoreiro". Isso expressa apenas o óbvio, assim como em seu primeiro mandato, o presidente nunca deixou de estar em campanha.

    A prática é comum e até certo ponto inevitável. Basta lembrarmos da exposição que fazia Itamar Franco de seu Ministro da Fazenda e potencial candidato à Presidência da República Fernando Henrique Cardoso que, inclusive, gostava de fazer pronunciamentos em rede nacional de televisão e rádio.


    Pouco tempo depois seu nome sairia como candidato da coligação PSDB-PFL.

    terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

    Brilho eterno de uma mente sem lembranças

    É impossível não cair no chavão de que a vida imita a arte. Uma experiência publicada na revista Nature Neuroscience informa que um conhecido remédio para o arritmia cardíaca e pressão alta, o propanolol, quando administrado em até 24 horas após um trauma, pode apagar essa memória potencialmente causadora de uma fobia.

    É uma porta perigosa que se abre, como no filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", em que uma firma apaga as memórias ruins de seus clientes, que acabam por repetir os mesmos erros do passado. Mas também é uma forma de se aliviar o estresse por traumas que podem se tornar bloqueios sociais.

    O medo tem uma função para todos os animais que é a preservação da própria vida. Ele está diretamente conectado com o instinto de sobrevivência. Sem essas memórias, o medo não se desenvolve e os deixa muito mais vulneráveis.

    Além disso, é necessário saber que efeitos o propanolol administrado com esse fim pode ter nas memórias a longo prazo. De qualquer maneira, é uma novidade interessante e que, se conduzida com responsabilidade, pode aumentar a qualidade de vida de pessoas com estresse pós-traumático.

    segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

    Entre o verossímil e a verdade

    Minha reação ao ler a respeito da brasileira Paula Oliveira, agredida por neonazistas na Suíça que levaram ao aborto de gêmeas que esperava, foi a mesma de todos os brasileiros: indignação e orgulho ferido. O fato era perfeitamente plausível – e até esperado – numa época em que a xenofobia está em alta devido à crise econômica global.

    Mas em pouco tempo começaram as contradições. A investigação forense indicou que a brasileira não estava grávida. Será? Não há por que a Suíça esconder-se por trás de divulgações de falsos boletins médicos e resultados de investigações. Dizem que ela se agrediu com um estilete porque tem personalidade limítrofe.

    O fato é que até o Presidente Lula exigiu uma investigação detalhada e parece não aceitar o aparente descaso com que a polícia está tratando o caso, que chegou a se tornar um pequeno incidente diplomático com potencial para ir parar na ONU. Agora a Suíça exige um pedido de retratação.

    É verdade que a imprensa se precipitou: repetiu a versão da brasileira como se fosse um fato. Por esse motivo, foi alvo de críticas da imprensa suíça, que a qualificou como sensacionalista. Mas, dada a conjunção dos fatores, o trauma do caso Jean Charles, os estudantes do Iuperj expulsos da Espanha entre outros abusos, será que podemos realmente culpar a mídia pela precipitação?

    Eu digo que sim. Aquele que quer informar jamais pode publicar um fato sem uma prévia apuração. A imprensa brasileira emite opinião travestida de fato puro. Um outro quarto poder, como diz Afonso de Albuquerque, que assume o lugar de porta-voz da verdade. E ai daqueles que discordarem.