sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Dubai e as ilhas da fantasia

Dubai não tem petróleo, mas parecia uma terra paradisíaca para os bilionários, principalmente homens de negócio e dos esportes. A explosão imobiliária do emirado atraiu milhares de pessoas, em sua maioria investidores e trabalhadores de multinacionais que foram em busca de dinheiro. Pessoas que antes eram de classe média começaram comprar imóveis ainda em construção.

Ilhas artificiais foram criadas, um complexo chamado "The World" que lembra os filmes futuristas de ficção científica. Um hotel em pleno mar, um complexo imobiliário em forma de palmeiras e uma dívida de quase cem bilhões de dólares foram o resultado desse empreendimento que prometia preparar a região para o futuro.

Esqueceram-se os ricos imigrantes de que se tratava de um emirado com leis rígidas e pouco inteligíveis para nossa cultura ocidental. Depois da crise de 2008, as obras foram paralisadas e quem pôde fugiu de lá deixando para trás carros, imóveis e o sonho da Ilha da Fantasia. Quem não fugiu e não pagou as dívidas foi preso e condendado.



No final de novembro, Dubai anunciou uma moratória de US$59 bilhões. Algo normalmente não tão grave, já que a prática é comum e não costuma acarretar em maiores consequências para os países em longo prazo: eles usam o dinheiro economizado com o não-pagamento da dívida para seu desenvolvimento e a renegociam com um belo desconto, às custas de sua confiabilidade. Mas Dubai não tem indústria. Não tem petróleo. Não tem água. Tem concreto e areia.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A imprensa do Rio

O Rio de Janeiro vai de mal a pior em questão de imprensa. Antes, havia dois grandes jornais com linhas editoriais distintas, O Globo e o Jornal do Brasil. Ainda que ambos tivessem um viés mais direitista, o primeiro era mais dirigido à classe média e o segundo, mais elitista. Para as classes mais baixas, existia O Dia, que foi melhorando de qualidade até o golpe do lançamento do Extra, pela empresa do Roberto Marinho, que era vendido a um preço ridiculamente baixo (R$0,25, se não me engano).

Hoje, não há mais JB. Há, mas não há. Inclusive há boatos de que a edição impressa deixará de circular e o jornal vai ser publicado exclusivamente online. O nível do Dia teve de descer ao do Extra para fazer frente junto ao seu público. Sobrou apenas O Globo.

O que me incomoda no jornal não é somente a linha editorial baseada no denuncismo e na busca pela desordem institucional. É o sensacionalismo, que ultimamente vem se colocando no nível dos programas mais vulgares como o de José Luiz Datena e Wagner Montes. A imagem abaixo é um excerto da edição online de hoje de manhã. Se espremer, sai sangue.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caetano, ¿por qué no te callas?

O crepúsculo de uma carreira é realmente triste. Lá se vão vinte e cinco anos do último disco genial de Caetano Veloso, o "Velô", e uns dez de seu último bom trabalho autoral.

Desde então, o ex-compositor tem feito de tudo para aparecer na mídia da pior maneira possível. Suas declarações não são somente polêmicas, são preconceituosas e, provavelmente, são emitidas com o objetivo de gerar respostas como a que publico neste blog.

Logo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, Caetano fez questão de declarar que considerava Osama Bin Laden "um homem bonito" sem que ninguém lhe perguntasse sua opinião sobre o físico do terrorista saudita. Essa semana, conseguiu soltar duas pérolas: chamou Woody Allen de "careta" e "reacionário" e Lula de "analfabeto", "cafona" e "grosseiro".

Ninguém é obrigado a gostar de um cineasta, e eu mesmo acho Woddy Allen muito maçante, às vezes, mas não é possível negar sua genialidade. Quanto ao presidente, que mais uma vez é chamado de analfabeto, é preciso explicar para Caetano o significado dessa palavra. Lula teve, sim, uma educação tardia, ainda comete erros de português, mas jamais chegaria aonde chegou – da forma como chegou – se fosse analfabeto ou ignorante.

Criticar o presidente por sua atuação ou por seus atos no exercício do poder é uma coisa. Mas emitir comentários preconceituosos não é somente deselegante. É cafona e grosseiro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

E a saúde, Cabral?

Dia 23 de outubro, o Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro publicou o desvio de 10 milhões de reais do Fundo Estadual de Saúde para a Subsecretaria de Comunicação Social da Casa Civil com as assinaturas do secretário da Saúde Sérgio Côrtes e do subsecretário de comunicação da Casa Civil Ricardo Cota.

Não sei se a medida em si é ilegal, mas imoral, certamente. Não que não se possa gastar o que necessário em publicidade do governo, mas esse gasto precisa ser planejado e orientado, e não desviado da saúde na véspera do início de uma campanha eleitoral.

Assim, a saúde do Estado continua padecendo e, para o governador Sérgio Cabral, responsável pela manobra, parece que dez milhões a mais ou a menos não fazem tanta diferença. Até porque as UPAs, o carro-chefe de sua primeira campanha, não têm funcionado como a população esperava.

As eleições vêm aí e o povo tem mais uma chance de mostrar o que não quer na política. Resta ver se essas informações vão chegar a quem decide, de fato, o futuro do Estado do Rio de Janeiro.



Atualização em 30/10: O blog da Veja diz que Eduardo Paes pretende gastar R$ 120 milhões em propaganda nos próximos dois anos. Apenas 32 vezes mais do que seu antecessor Cesar Maia.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Não marque nada para segunda

Dia 30 de setembro, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei transfere quase todos os feriados para segunda-feira, mesmo os que caem às sextas. Essa prática já foi adotada no Rio de Janeiro pelo prefeito Marcello Alencar e prejudicou imensamente a sua população, tanto que foi abortada.

É verdade que um feriado no meio da semana atrapalha o comércio, mas com todos os feriados marcados para as segundas, é impossível para um profissional liberal, seja um professor ou um psicanalista, atender nesse dia, já que ninguém vai querer perder tantas sessões ou aulas. Os cursos podem esquecer o início da semana e abrir somente na terça-feira, pois as aulas de segunda estarão comprometidas.

Esse problema se estende às faculdades. Num semestre cheio de feriados, como o atual, as disciplinas da segunda-feira ficarão extremamente prejudicadas.

Será que os deputados pensaram nisso antes de aprovar essa lei absurda?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O que fazer com Polanski?

Ele é um dos maiores gênios do cinema de seu tempo, disso não há dúvida. De "Repulsion" até "O Pianista", passando por "O bebê de Rosemary", Roman Polanski coleciona clássicos, ganhou um Oscar e um Globo de Ouro e ainda tem muito trabalho para fazer.

Mas em 1977, dopou e estuprou uma adolescente de 13 anos durante uma sessão de fotos nos Estados Unidos. Ela sequer estava acordada para se defender ou dizer não para o diretor. Trinta e dois anos depois, finalmente conseguiram pegá-lo num país com acordo de extradição.

Estupro, assim como assassinato, é um crime hediondo e, por isso, não prescreve nos EUA. Nem deve. Nós, fãs do cinema, podemos lamentar sua prisão como uma perda para a cultura, mas como seres pensantes, não podemos achar que o caso deva ser simplesmente esquecido.

A própria vítima do estupro já pediu para que a acusação fosse retirada, pois não aguentava mais a exposição, mas a Justiça dos EUA disse que Polanski precisa se entregar e solicitar a anulação do caso.

Não sei dizer o que seria correto nesse caso, mas, mesmo trinta anos depois, um crime dessa natureza não pode ser simplesmente deixado de lado.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

E o que o Brasil tem com isso?

O pepino é maior do que o Brasil previa. Montagem: Flávio S. ArmonyAté agora não entendi qual foi a estratégia do Brasil ao receber o ex-presidente de Honduras Manuel Zelaya em sua embaixada no país. Esse não é o tipo de conflito em que nosso país costuma se meter, ainda mais quando parece não entender exatamente o que está se passando.

Zelaya foi eleito democraticamente para o cargo, mas excedeu sua autoridade quando convocou um plebiscito para a formação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Seu objetivo era reformar a Constituição do país de forma a permitir sua reeleição. Entretanto, o artigo 239, cláusula pétrea da Constituição hondurenha, proíbe a reeleição presidencial e prevê que aquele que tentar alterá-lo deve ser destituído imediatamente do cargo e perder a qualidade de cidadão, assim como os que o apoiarem.

A Corte Suprema do país ordenou a destituição de seu presidente e deixou a cargo das Forças Armadas a execução da ordem. O problema é que os exércitos latino-americanos são dados a truculências e, em vez de dar voz de prisão ou deixá-lo em prisão domiciliar, preferiu encapuzar e largar o ex-presidente na Costa Rica.

Agora Zelaya está de volta ao país e, por causa da diplomacia brasileira – normalmente tão eficiente –, surge uma nova crise: o que fazer com ele? Não dá para enviá-lo novamente para a Costa Rica. Soltá-lo em território hondurenho é um risco muito grande a sua vida. Talvez a saída seja uma negociação para, quem sabe, deixá-lo em prisão domiciliar. Aí eu pergunto: não seria melhor viver exilado na Costa Rica?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bingos: legalizando o crime organizado

Mais uma vez a Câmara dos Deputados demonstra estar indo na contramão do bom senso. Sua Comissão de Constituição e Justiça aprovou a legalização dos bingos e dos caça-níqueis sob a alegação de José Genoíno (PT-SP) de que "o jogo é da natureza humana". Pode ser, mas tenho dificuldade em enxergar o bem que uma medida como essa pode fazer pela sociedade.

Não somente porque conheço algumas histórias sobre pessoas que perderam tudo em máquinas de caça-níqueis, que são programadas para não deixar o jogador vencer e não têm como ser fiscalizadas nesse sentido, afinal sempre pode-se alegar que "joga quem quer".

O Ministério Púbilco já havia denunciado a ligação entre o bingo e o crime organizado. Montagem: Flávio S. ArmonyO grande problema é que bingos podem funcionar como grandes lavanderias de dinheiro ilegal, já que não precisam comprovar a fonte de seus ganhos, podendo justificar tudo como apostas de seus clientes. Assim, fica fácil para traficantes e políticos corruptos fazerem uso de seus recursos e provavelmente até pagarão impostos sobre eles.

Mas os governistas só querem saber do imposto que isso vai gerar. Afinal, quando o dinheiro entra, ninguém quer saber de onde ele vem. Resta agora torcer por um pouco de lucidez da Câmara e do Senado na votação do Projeto, o que parece cada vez mais difícil.

domingo, 30 de agosto de 2009

Made in China II

Sei que é um assunto batido, mas a cada vez que vejo algo assim, sinto-me no dever de alertar quem eu puder. Ontem, nas Lojas Americanas, deparei-me com um pacote de escova dental chamado Dental Clear numa embalagem bem vagabunda no esquema "leve 3, pague 2". Evidentemente, o produto era fabricado na China.

Não bastasse ser uma escova genérica, parecia ser de péssima qualidade, além de não ser recomendada pela Associação Brasileira de Odontologia. Isso representa um perigo, pois a composição e o grau de rigidez das cerdas pode prejudicar a gengiva e o esmalte dos dentes.

Isso já seria motivo suficiente para não se comprar a escova. Mas, para piorar, algumas embalagens vinham com o produto encardido! Em que condições essas escovas são produzidas e embaladas? Qual é a origem do material usado? Até porque, descobriu-se que muitos elásticos de cabelo fabricados naquele país são produzidos a partir de camisinhas usadas num esforço para aproveitamento total e acabam custando muito barato. Será que são estes que chegam nos camelôs brasileiros?

Bem, resolvi comparar com uma escova muito parecida, a Colgate Extra Clean, que tem o mesmo limpador de línguas e um formato praticamente idêntico. Pela foto, dá para notar que é uma cópia cuspida (com o perdão do trocadilho), a não ser pela disposição das cerdas, que é ligeiramente diferente.

Aliviado por ter um produto de qualidade em casa em vez de um genérico suspeito, qual foi a minha surpresa quando vi a etiqueta: o produto também é produzido na China. E agora?

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Carros a Diesel: na contramão da História

Esta semana, recebi um boletim do Senador Gerson Camata informando sobre o Projeto de Lei Substitutivo 656/07 que propõe a liberação da fabricação de carros de passeio com capacidade de carga até mil quilogramas movidos a Diesel. O senador alega que é uma forma de dar acesso a combustíveis mais baratos para a população, que hoje conta com carros a álcool, gasolina e GNV.

Entretanto, existem bons motivos pelos quais isso nunca foi permitido no Brasil. Primeiramente, o nível de poluição do Diesel é alto devido ao teor de enxofre que está contido no combustível. Mesmo com a diminuição dessa concentração para 50 ppm ou 10 ppm nos próximos anos, é um combustível barato que acabaria substituindo o uso do álcool, que é pouco poluente, pois todo o gás carbônico que joga no ar é capturado pela cana-de-açúcar em estágio de crescimento.

Em segundo lugar, ainda existe subsídio do Diesel no Brasil, pois ele é utilizado para fins comerciais (ônibus, caminhões de carga). Caso o combustível possa empurrar carros de passeio, sofreremos uma dessas consequências: ou o subsídio persiste e os novos motoristas abandonarão os carros flex, a álcool e a GNV e o nível de poluição aumentaria consideravelmente, principalmente nos centros urbanos; ou o subsídio acaba e todos os preços de transporte sobem, gerando uma inflação inicial grande em praticamente todo tipo de produto no Brasil.

Existem outras soluções para diminuir o preço dos combustíveis. Uma delas é a diminuição dos impostos, que hoje elevam o preço da gasolina em quase 80%. Mas aí nos depararíamos com outra questão: realmente precisamos de mais carros na rua? Ou é melhor investir em transporte público de qualidade?