sexta-feira, 2 de março de 2012

A incoerência carioca

O calor acima dos 40°C parece ter fritado de vez os miolos dos cariocas. Outro dia tivemos um delírio coletivo de que Cesar Maia (DEM) e Anthony Garotinho (PR) estavam se unindo pela candidatura de seus filhos Rodrigo e Clarissa à prefeitura do Rio de Janeiro.

Os impopulares Maia e Garotinho ocuparam, respectivamente, a prefeitura do Rio e governo do Estado. O primeiro viu sua aprovação despencar enquanto ocupava o cargo e o segundo enquanto sua esposa, Rosinha, fazia uma gestão desastrosa – especialmente em termos de segurança pública – no cargo em que o sucedera. Rodrigo Maia, por sua vez, é um bem votado, mas inexpressivo, deputado federal. Não é bom orador, mas funciona para a Câmara, pois articula bem nos meios políticos. Nada a ver com os eleitores.

Talvez a única semelhança que Maia e Garotinho tenham, além da impopularidade, seja o fato de ambos fazerem oposição ao PT, Maia de forma mais discreta e Garotinho comparando Dilma a Hitler.

Do outro lado, Eduardo Paes (PMDB) já faz uma gestão muito ruim, pelo menos em termos de saúde e educação, e desviou recursos para a publicidade, que superaram em 2.450% a verba da gestão anterior, de Cesar Maia.

Marcelo Freixo, do PSoL, ainda não definiu se será candidato. O deputado vem sendo ameaçado de morte devido ao combate às milícias do Rio de Janeiro e isso pode pesar na decisão. Se Freixo é excelente no Legislativo, paira a dúvida se ele também o será frente ao Executivo do município. Uma coisa é fato: coragem não vai lhe faltar. Mas será que a competência virá junto?

Mais uma vez, o eleitor carioca encontra-se numa encruzilhada entre o velho e fracassado, o atual e despreocupado, e o novo e incógnito. Mas, pelo que tudo indica, teremos mais quatro anos de Duda Paes, que contou com 98 milhões de reais da máquina administrativa para fazer sua pré-campanha.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O mesmo banco, a mesma praça...

Serra declarou que será candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSDB. Conta, para isso, com o apoio do desafeto Geraldo Alckmin. Mas o eleitor paulistano deve ficar atento ao candidato à vice-prefeitura, já que o velho tucano ainda não desistiu de disputar a Presidência da República e deve se meter em mais um embate com Aécio Neves daqui a dois anos.

Do outro lado, Fernando Haddad, ex-péssimo ministro da Educação dos governos Lula e Dilma, deverá ser o candidato do PT, que por pouco não contou com o apoio do recém-refundado PSD, de Gilberto Kassab. Vitória política de Marta Suplicy, adversária do novo social-democrático desde a época da Frente Liberal, que jogou o atual prefeito no colo do PSDB para fechar a aliança tucana-demo-kassabista, mantendo unida a direita liberal do estado de São Paulo.

Ambos os candidatos precisam vencer para continuar no cenário político nacional e, quem sabe, crescer politicamente para alcançar o Palácio do Planalto. Serra tem em 2014 sua última chance e Dilma, se reeleita, precisará indicar um sucessor dentro de seu partido, possível aspiração de Haddad.

Ou seja, este ano, o eleitor paulistano está entre duas opções desastrosas. Entre o inescrupuloso Serra e o incompetente Haddad, a cidade de São Paulo promete passar mais quatro anos no marasmo daquela que deveria ter a prefeitura mais forte do país, mas foi transformada em trampolim político para quem quer voos mais altos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Big Brother e o Brasil

A maior discussão da semana passada girou em torno do estupro, não-estupro ou abuso sexual ocorrido durante o programa Big Brother Brasil, que está na décima segunda edição. Em primeiro lugar, precisamos analisar quem são os responsáveis pelo programa ter chegado no ponto onde chegou.

Desde a edição anterior, o teor alcoólico do programa, a mando de seu diretor, aumentou. Alegou-se ainda que ele afirmou que valeria até violência no programa, algo que foi posteriormente desmentido. Mas daí percebe-se o clima de vale-tudo para aumentar a audiência de um programa que não nasceu para ter tantas edições, mas acabou caindo no gosto do povo e não parece que vai acabar tão cedo.

Recém-formado, trabalhei na quarta edição do programa como produtor de conteúdo para o portal na internet. Ao ser entrevistado para ingressar no trabalho, o então coordenador do site em perguntou se eu gostava do programa. A minha resposta foi "não" e, mesmo assim, fui contratado. Das coisas que percebi, três me chamaram mais a atenção: a edição do programa que vai ao ar é feita de tal forma que não exibe de fato um resumo do que aconteceu, mas direciona a opinião do público (aliás, a Globo mostrou que faz isso bem em 1989); de vez em quando, o áudio sumia e, aparentemente de forma inadvertida, os participantes mudavam de assunto e começavam a falar mal de um ou outro participante (seria a voz do Grande Deus, como eles chamavam?); por fim, o programa de atualização dos votos em tempo real, um dia, passou a se comportar de forma estranha, retornando somente múltiplos de mil na soma dos votos do paredão. Não estou dizendo aqui que os números sejam falsos ou manipulados, mas achei muito esquisito os votos, que deveriam crescer de forma errática, ficarem tão redondos.

A polêmica gerada em torno da cena do suposto estupro mostra que a televisão ainda não é livre para fazer o que bem entender. Mas o fato de não ter havido intervenção da direção do programa torna sua produção cúmplice do que quer que tenha acontecido lá dentro. E por mais que a suposta vítima negue ter sido estuprada ou sexualmente abusada, ela não parecia em condições de lembrar o que acontecera, pois, seguindo a diretriz do programa, embebedou-se à inconsciência.

Talvez seja mesmo a hora das emissoras de televisão do Brasil reverem seus conceitos. Caso contrário, talvez seja a hora de alguém rever esses conceitos por elas.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O risco da profissão

Ontem morreu o cinegrafista Gelson Domingos, da Rede Bandeirantes, durante uma troca de tiros na favela de Antares, em Santa Cruz. Quando morre um jornalista, ouvimos os mais diversos disparates, desde a crítica em relação ao empregador que, segundo alguns, deveria ter provido maiores condições de segurança para seu funcionário, até frases desconexas sobre liberdade de imprensa.

O colete balístico que o repórter utilizava era o mais resistente permitido pela lei. Atentado à liberdade de ir e vir, com certeza, mas apenas autoridades têm o poder de praticar atos contra a liberdade de imprensa. O fato é que, assim como aconteceu com o jornalista Tim Lopes, o jornalismo policial nesse nível é muito próximo da correspondência de guerra e tem os seus riscos. Entrar num tiroteio durante uma invasão policial é um risco calculado, tanto que foi o primeiro profissional de comunicação que morreu desta forma, mas o risco está lá.

Gelson tinha décadas na profissão e até então nada lhe havia acontecido. Outras pessoas estavam lá e agiram da mesma forma. O que aconteceu foi apenas uma fatalidade.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Boicote ao carro zero

Hoje recebi um email bem interessante sugerindo que façamos um boicote à compra de carros zero quilômetro. O consumidor brasileiro compra mais de três milhões de carros por ano, representando uma receita de cerca de 115 bilhões de reais. Ao mesmo tempo, o Brasil tem os carros mais caros do mundo por categoria, ou seja, compra-se um Gol 1000 no Brasil pelo preço de um Honda Civic nos Estados Unidos. E por quê?

É simples: porque o consumidor brasileiro não é nada exigente em termos de automóveis e topa pagar fortunas por porcarias. Coisa de novo-rico. Quem se lembra do então ministro Ciro Gomes criticando aqueles que compravam carros com ágio em 1994? E, ao contrário do senso comum, o que torna os carros caros no Brasil não é a carga tributária, mas sim o lucro das montadoras.

E nós podemos passar um ano sem comprar carros novos? É claro que sim. Dar um prejuízo de 115 bilhões a um dos setores que mais desrespeita o consumidor (carros 1000, sem airbags, sem freio ABS, sem direção hidráulica...) não seria só uma resposta, seria chegar a um novo patamar em termos de relacionamento. Precisa trocar de carro? Procure um com um, dois anos de uso; isso não beneficia a indústria. Ou espere um ano.

Se isso fosse possível, nos primeiros meses de 2012 os carros sofreriam uma queda vertiginosa de preços. Mesmo que a adesão fosse baixa, a indústria sentiria a diferença. Mas esse é outro problema do brasileiro: a falta de consciência coletiva e a sensação de que aqueles que têm ideias são apenas Quixotes atacando moinhos de vento.

domingo, 16 de outubro de 2011

A tragédia no restaurante Filé Carioca

Na última quinta-feira, dia 13 de outubro, uma explosão destruiu o restaurante Filé Carioca, na Praça Tiradentes. Eu costumava frequentá-lo esporadicamente e tinha dado uma avaliação muito positiva do restaurante no meu guia "Comer no Centro". Foi o único restaurante cujo dono se manifestou respondendo a minha avaliação e efetivamente promovendo mudanças a fim de aumentar a qualidade do estabelecimento.

Por esse motivo, gravamos no interior do Filé Carioca no dia 6 de outubro, exatamente uma semana antes da tragédia, um programa para circular na televisão interna do meu trabalho sobre o guia. Conheci o dono, o Rogério, que me explicou as mudanças que foram feitas, principalmente no sistema de exaustão, pois a umidade deixava o subsolo com cheiro de mofo.

Essa informação estava como comentário do dono no meu guia, já que em minha avaliação eu chamava a atenção para o odor incômodo. Com o problema resolvido, retirei este trecho, mas não o comentário que informava da resolução do problema. Eis que, após a tragédia, um debate surgiu na área de comentários da avaliação e um jornalista com o péssimo hábito de não checar as informações escreveu uma matéria para a Veja online utilizando esses comentários como fonte. Resultado: confundiu o problema do cheiro de mofo do subsolo com um possível problema de exaustão da cozinha do restaurante, levando o leitor a uma falsa conclusão.

Não sabemos até que ponto Rogério, o dono do restaurante, teve responsabilidade sobre o ocorrido. O fato é que houve inspeções no local e o estabelecimento nunca foi interditado ou multado por estocar gás em bujões. É claro que, quando se fala em gás, é notória a necessidade de se manter o local aberto e arejado para caso de vazamento. Houve negligência? Talvez. Ignorância? Com certeza. Mas culpar abertamente Rogério, às vezes com adjetivos mais do que pejorativos, como fizeram nos comentários (alguns apagados por mim para poupar as pessoas ligadas ao evento), é, no mínimo, imprudente. Deixemos as autoridades fazerem seu papel e descobrirem exatamente o que aconteceu. Ouçamos o que o Rogério tem a dizer sobre isso tudo. Antes disso, somente podemos prestar solidariedade a ele e às vítimas desta tragédia.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Humor?

É relativamente recente, no Brasil, o sucesso do humor de stand up, derivado dos programas mais informais da televisão, como o Pânico na TV e o CQC. Nesses últimos anos, novos talentos surgiram, uns mais, outros menos inspirados, mas o formato conquistou seu espaço e se consagrou.

Nessa informalidade, alguns humoristas se esquecem de que não estão numa mesa de bar com os amigos, liberados para falar qualquer grosseria que lhes venha à cabeça. O que parece acontecer é que eles ficam tão populares e tão acostumados a desmoralizar pessoas públicas utilizando o humor – e contra o humor não há argumento possível – que desenvolvem uma arrogância que os faz pensar que podem falar qualquer coisa e se livrar disso. E mais: que todos têm a obrigação de achar graça de suas piadas e que quem não acha é babaca.

Depois de falar que mulher feia deveria dar graças a deus por ser estuprada, Rafinha Bastos afirmou que Wanessa Camargo "está bonitinha grávida" e que "comeria ela e o bebê". A grosseria na televisão brasileira parece ter ultrapassado a barreira do mau gosto e chegado a uma questão, talvez, de desrespeito à lei, com incitação ao estupro e de extremo desrespeito às mulheres em ambos os casos.

Suspensão foi pouco. Rafinha Bastos deveria ser demitido do canal e afastado da televisão brasileira por um bom tempo para repensar seus conceitos de humor e liberdade de expressão.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Burocracia e corrupção

Ontem, feriado da independência, eclodiram protestos contra a corrupção em algumas cidades do Brasil. Pessoalmente, só vi quatro pessoas carregando uma faixa na avenida Atlântica enquanto um homem de meia-idade andava em zigue-zague com a cara pintada distribuindo panfletos.

A corrupção é, de fato, um problema endêmico do nosso país e data da própria distribuição das Capitanias Hereditárias: o Brasil tem donos, sempre teve. Mas será mesmo que esse é o maior e principal problema a ser combatido? Será que os protestos estão na direção certa?

Eu discordo. O que se desvia por meio de corrupção no país é muito pouco comparado com sua arrecadação de tributos: da ordem de menos de 2%, embora alguns dados sejam discrepantes. E por que a máquina brasileira é tão emperrada?

Para mim, o grande problema do país é a burocracia. É evidente que por si só ela facilita a corrupção e, talvez, exista intencionalmente para isso. Mas combatendo o excesso de burocracia conseguiremos diminuir a corrupção e agilizar as atividades produtivas e financeiras no Brasil.

Por que ainda não conseguimos melhorar nossos aeroportos? Por que as obras do metrô atrasam tanto? Conseguiremos reformar e construir os estádios para a Copa do Mundo? Por que é tão difícil abrir e fechar uma empresa no Brasil?

Talvez precisemos focar mais na eficiência do Estado e da máquina pública. Assim poderemos unir o útil ao agradável: um país mais ágil se desenvolve melhor, mais rápido e dá menos espaço para desvios.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Murders and executions II

Dilma mandou o BNDES se retirar do negócio do Pão de Açúcar com o Carrefour. Não dá para entender nem por que o banco estava metido nisso, para começar, a não ser pelo fato de Abílio Diniz ter apoiado o PT nas últimas três eleições.

Não sou a favor do liberalismo, acho que o Estado deve, sim, intervir na economia. Já está mais do que provado pela década de 1990 que o mercado não se regula sozinho e que precisa de mais do que agências e legislação estrita.

Grandes conglomerados estão se unificando, vide a compra da Brasil Telecom pela Oi, as compras dos bancos Unibanco e Real respectivamente por Itaú e Santander, a compra dos postos Ipiranga pela Petrobras e a própria aquisição do grupo Sendas pela empresa de Abílio Diniz. Isso sem falar na gigantesca Ambev, que levou esse movimento a um nível internacional engolindo a belga Interbrew e a tradicional estadunidense Anheuser-Busch, dona da Budweiser, a mais "americana" das cervejas.

Não é a sua mão aí

Com isso, cai um princípio básico da economia capitalista que é o da concorrência. E o Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, parece não estar conseguindo (ou tentando) proteger o consumidor da monopolização da economia. E, por consequência, a qualidade destes serviços não tardará em cair.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Lewis Hamilton: à moda antiga

Muito tem sido dito para criticar o piloto campeão de 2008 Lewis Hamilton. Ele faz por onde: acusa os comissários de racismo, sofre acidentes seguidos – na última corrida foram três em duas voltas – e estraga a corrida de muitos dos seus adversários.


Mas ele tem algo seu favor: seu estilo agressivo e inconsequente destoa dos pilotos comedidos, técnicos e pouco emotivos da Fórmula 1 de hoje. É claro que falta maturidade ao jovem britânico, mas seu estilo, uma mistura do arrojo de Ayrton Senna e da loucura de Nigel Mansell, dá um pouco de brilho aos motoristas que ocupam o grid na atualidade.

No Grande Prêmio da Bélgica de 2008, em Spa Francochamps, ele ultrapassou Kimi Räikkönen no estilo kart, escorregando com as rodas lateralmente até ocupar o espaço à frente do finlandês. Não é algo que se veja mais por aí. O mesmo arrojo o fez perder o campeonato de 2007 no GP da China, quando deixou os pneus chegarem ao limite e entregou dez pontos para seu adversário da Ferrari.

Naquele ano, sua briga com Alonso, agora já acalmada, lembrou de leve as desavenças de Senna e Prost na mesma McLaren lutando pelo título, só que com um final bem mais feliz para a equipe (em 2007, Räikkönen, da Ferrari, se beneficiou da briga e foi campeão).

Bem, resta-nos torcer para que mantenha seu estilo, mas com um pouco mais de juízo. Sua pilotagem me agrada muito e me faz matar um pouco a saudade daquela F1 que me fez amar o esporte.