sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ana/Mia

Esta semana foi divulgada a morte da modelo Isabelle Caro por anorexia nervosa. Já há algum tempo, eu recebi um vídeo e fui pesquisar sobre distúrbios alimentares. Descobri que pessoas com anorexia e bulimia não se consideram doentes, mas acham que têm um estilo de vida. Elas apelidam seus distúrbios como Ana (anorexia) e Mia (bulimia), personificam as doenças e as consideram suas melhores amigas.


Fiz uma pesquisa na internet pelos termos para descobrir a gravidade da situação. Encontrei inúmeros blogs através dos quais suas autoras, maioria de garotas adolescentes, dividem suas experiências, contam sua trajetória, demonstram sua insatisfação com seu corpo e, muito frequentemente, ensinam técnicas para passar dias sem comer.

Utilizam termos como LF (low food), para comer o mínimo possivel e coisas muito leves, ou NF (no food), um dia 0 cal. Mostram como enganar o estômago, o cérebro, os amigos, os pais. Ensinam a "miar" (vomitar) após sucumbirem a sua compulsão (comer?), tiram dúvidas das internautas e apoiam umas as outras.

Escrevo este texto como um alerta aos pais que têm filhas (principalmente, mas homens também podem sofrer disso) com idades entre dez e vinte anos que aparentam levar uma vida normal, mas que parecem preocupadas demais com seu corpo. Não se iludam, elas sabem como enganar todos a sua volta e contam com uma rede ilimitada para apoiá-las.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Compra coletiva

A febre da compra coletiva tomou conta da internet de tal forma que os sites com essa finalidade se multiplicaram em pouco tempo. Eu mesmo já devo ter feito algumas dezenas de compras em uns cinco ou seis sites diferentes.

Mas as promoções, às vezes não são tão boas quanto anunciadas. É aconselhável verificar se o preço original estampado na página é realmente o preço que se cobra no restaurante ou loja e se o produto é o mesmo que se vende para os outros consumidores. É muito comum, por exemplo, o prato ou a sobremesa servidos serem menores do que os originais.

Algumas promoções que envolvem viagem não deixam muito claro o preço final a ser pago, visto que o desconto costuma ser somente na entrada. É possível que o consumidor se confunda e acabe pagando muito mais do que planejava. E alguns sites criam muitos problemas para devolver o dinheiro caso o consumidor desista da conta. Neste caso, recomendo o uso do portal Reclame Aqui, ao qual normalmente as empresas respondem.

Outra coisa que me surpreendeu foi que hoje eu recebi um anúncio de uma tabacaria, vendendo charutos e café. Que eu saiba, a propaganda de tabaco é limitada e não está permitida em sites da internet, muito menos a sua venda. Acho até que não fizeram de má-fé: muita gente se esquece que charuto e cigarros estão submetidos à mesma legislação. De qualquer maneira, enviei um email para eles sugerindo que tirassem a promoção do ar para não correrem o risco de sofrer ações legais.

De qualquer forma, a inciciativa é ótima e pode gerar uma bela economia. Mas, como qualquer outra ferramenta, é necessário saber usar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O golpe do momento

Cada vez mais eu constato que o ser humano precisa arrumar novos mitos em que acreditar a qualquer custo. De tempos em tempos, algum produto mágico aparece, seja um elixir, uma fonte da juventude, uma dieta ou algo que vai deixar seu corpo torneado sem esforço.

O golpe do momento se chama Power Balance. O produto em si é um holograma com um logotipo tosco. Nem é um holograma de alta tecnologia, parece com aqueles estampados nos cartões de crédito. É vendido em uma pulseira de plástico ou silicone, como os relógios infantis.

A explicação? "A pulseira POWER BALANCE® contém embutidos dois hologramas quânticos de Mylar programados com frequências que interagem naturalmente com o campo electromagnético do corpo humano". Seus benefícios "incluem melhoria de equilíbrio, o aumento da força, uma maior amplitude de movimentos e um bem-estar geral".

Como é? Holograma quântico? Quântico: "Diz-se de qualquer sistema ou fenômeno quantificado". Campo eletromagnético do corpo humano?

Não caiam nesse golpe. Enquanto as pessoas continuarem buscando soluções mágicas para seus problemas sempre haverá quem promete uma solução.

Atualização em 5/1/2011: Os próprios fabricantes admitiram que a pulseira é uma farsa e vão devolver o dinheiro. Agora eu vi um anúncio no metrô vendendo um neutralizador de eletromagnetismo, nos mesmos moldes!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Schumacher x Prost

O que os dois supercampeões têm em comum e o que têm de diferente? Saindo do blablablá habitual de que a Fórmula Um de hoje é diferente da de outrora, ambos fizeram a mesma escolha: abandonar o esporte por um tempo para tentar uma volta triunfal.

As condições eram parecidas: em 1993, a Williams tinha um carro que, como disse Ayrton Senna, estava em outro planeta em relação aos demais. O mediano Nigel Mansell fora campeão no ano anterior fazendo praticamente todas as pole-positions e ganhando mais da metade das corridas com um carro que corria sozinho. Schumacher entrou para uma equipe campeã, que colocou os medianos Jenson Button e Rubens Barrichello em primeiro e terceiro lugar no campeonato com um carro que começou a temporada muito acima dos demais que, aos poucos, foram alcançando-o.

Prost foi tetracampeão com aquele carro e decidiu se aposentar de vez. Ainda assim, a genialidade era visível na direção do francês. E o que aconteceu com Schumi? Suas atuações medíocres neste ano fizeram dele a decepção da temporada. Ficou atrás de seu companheiro de equipe (bem atrás, diga-se de passagem) e encerrou o ano com um acidente ridículo que poderia ter sido muito grave.

Ele errou ao voltar? Acho que não. Talvez ele realmente não seja mais tão bom quanto antes, mas como saber disso sem entrar na pista? Que melhor equipe do que a campeã para seu retorno? Discordo de Mika Häkkinen, que o considera um ex-herói trágico. Não vai ser uma sequência ruim que vai lhe tirar o legado de sete títulos mundiais.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Liberdade de imprensa: uma proposta cínica

Quem aqui ouviu falar sobre Maria Rita Kehl? Uma respeitada psicanalista, ex-colunista do Estado de São Paulo que resolveu escrever o que pensa. Seu artigo pode ser sintetizado por uma frase acerca dos emails veiculados pelas ditas elites na internet: "O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos". Resultado? A jornalista foi demitida do jornal, o mesmo jornal que considera que a liberdade de imprensa está ameaçada.

Num episódio oposto, o senador tucano eleito por São Paulo recusou-se a dar entrevista para veículos de comunicação que divergiam de sua opinião política por serem ligados ao PT.


Muito já foi dito e demonstrado sobre a imprensa brasileira. Sabemos que poucas famílias dominam a comunicação no Brasil (quatro segundo a revista CartaCapital e nove ou dez segundo Lula) e que sua orientação política sempre foi ligada à direita, com todas as metamorfoses que a direita sofreu (para entender o que isso significa, vale ler Anthony Giddens – Para além da direita e da esquerda – e Norberto Bobbio – Direita e esquerda). Então, que liberdade é essa que mostra apenas um dos lados, que não permite um equilíbrio entre ideologias, que dá voz para apenas quatro (ou nove ou dez) famílias brasileiras e demite quem ousa falar expor outras ideias?

Sou a favor da liberdade de imprensa – antes que se diga o contrário – ampla e irrestrita. Em vez dos jornalistas seguirem a opinião e a doutrina de seus editores, a eles deve ser permitido falar sob seu próprio ponto de vista sem que seus empregos estejam em risco. Defendo que, para se demitir um jornalista, seja necessário abrir uma sindicância com membros internos e externos ao veículo para se ter certeza de que essa demissão não teve motivação política ou, como disse Maria Rita Kehl, originado-se a partir de um "delito de opinião".

Assim todos os pontos de vista serão expostos para todas as pessoas por todos os meios. Assim os jornalistas poderão gozar dessa liberdade de imprensa da qual somente os donos dos veículos gozam. Faz sentido?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

1989

Lula tem aparelho de som. Collor não. Lula odeia negros e quis abortar sua filha. Collor massacrou Lula no último debate de candidatos à Presidência da República. Dilma mata criancinhas. Dilma é terrorista. Dilma é a favor do aborto.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Ingênuo fui eu por achar que o Brasil havia superado os métodos sujos que a grande imprensa, o grupo apelidado por GAFE (Globo, Abril, Folha e Estado), perceberia que não há mais clima para esse tipo de difamação na democracia que o Brasil conquistou nos últimos vinte anos.

Hoje li um artigo do Mainardi dizendo que Dilma transformará o Brasil numa loja falida de artigos de R$1,99. O Globo, semana passada, mais uma vez, usou dois pesos e duas medidas sobre o casamento homossexual. Quando foi Dilma a declarar, o jornal publicou que ela era contra o casamento gay, mas a favor da união civil de pessoas do mesmo sexo, "que ela diz ser diferente". Quando Serra disse a mesma coisa, o Globo simplesmente explicou a diferença.

A central de boatos, desmentidos com provas, circula na internet. Quem as divulga são os eleitores de Serra – esses, muitas vezes, sem saber que se tratam de mentiras. Esses boatos são gerados por uma direita fascista, velha conhecida do nosso país, que apoiou o golpe militar em todas as suas fases.

E o que dizer do fiasco da bola de papel? Se a atitude dos mata-mosquitos demitidos por Serra quando era ministro foi errada ao tentar agredir o candidato, não há nem questão, é evidente. Mas fazer uma tomografia por causa de uma bola de papel após um telefonema? E a Globo tentando mostrar um rolo de fita adesiva invisível durante sete minutos, com o depoimento de um perito, no mínimo, suspeito? No mesmo dia, usou 18 segundos para falar do recorde de baixa do desemprego no país.

E vem a imprensa, dizer que teme por sua liberdade. A mesma liberdade que elegeu Collor baseada em factóides e que tenta retirar alguns pontos de Dilma na mesma moeda. Sorte que hoje existe a internet e já não é tão fácil inventar histórias. Essa é a verdadeira liberdade de imprensa.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O PSOL e o Groucho-Marxismo

Todos nós que vimos os debates presidenciais do primeiro turno percebemos a falta de seriedade nas propostas do candidato do PSOL Plínio de Arruda Sampaio. Suas palavras propunham uma total subversão da ordem, ignorando preceitos constitucionais e pregando medidas que só seriam possíveis através de um levante armado.

Deu graça aos debates, isso é fato, mas não a mesma graça que deu, por exemplo, Marina Silva, com um discurso ponderado e coerente. Plínio deu a graça do palhaço, assim como Tiririca – mais bem sucedido –, fazendo um papel ridículo e professando disparates impraticáveis diante de milhões de pessoas.

O Partido Socialismo e Liberdade surgiu em 2004 de uma dissidência do Partido dos Trabalhadores que achava seu governo muito à direita do esperado, seguindo a cartilha neoliberal cartesianamente ditada por Fernando Henrique Cardoso, antecessor de Lula.

Muitos de seus membros haviam sido expulsos do PT por votar de forma diversa à orientação do partido, o que é considerado uma traição na política e iniciaram uma feroz oposição, à esquerda do PT. Expoente do novo PSOL, Heloísa Helena candidatou-se à Presidência da República em 2006, obtendo uma votação expressiva.

O partido pretendia ser uma alternativa, composto por nomes sérios e consagrados, como os de Chico Alencar e Luciana Genro, para citar dois. Mas a escolha de seu candidato à Presidência em 2010 deixou claro que não tem a intenção de crescer, de apresentar uma proposta séria, uma opção à esquerda para o país.

É uma nova modalidade de marxismo: o Groucho-Marxismo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A imprensa oscila para baixo

Uma coisa que eu reparo em todas as épocas de eleições é que os jornalistas não sabem o significado da palavra oscilar. Oscilar é realizar o movimento de pêndulo, ou sofrer variações em sentidos opostos.

Em todas as pesquisas, quando um candidato sobe ou desce, decreta-se: oscilou para cima; oscilou para baixo... a intenção de voto não oscila para cima ou para baixo. Quando ela oscila, move-se em ambos os sentidos com maior ou menor intensidade.

Vamos simplificar as coisas? Ganhou pontos: subiu. Perdeu pontos: desceu. Não é melhor assim?

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Como funciona o voto proporcional

Uma coisa que confunde os eleitores brasileiros é o voto proporcional. Existem três cargos legislativos que utilizam esse sistema para definir os eleitos: deputado federal, deputado estadual e vereador. O voto para senador é majoritário, ou seja, ganha quem tem mais votos.

Talvez essa seja a grande dificuldade do brasileiro: entender por que um deputado mais votado pode ficar de fora, enquanto um menos votado acaba eleito. A explicação é simples, mas vai de encontro à cultura política do país.

Em primeiro lugar, o eleitor não vota no candidato. Vota no partido ou coligação. Ou seja, a primeira coisa que é feita com os votos dos eleitores é a soma de todos os votos que foram para o partido ou coligação. Esses total contempla os votos nas legendas e os votos nos candidatos. Então descobre-se quantos deputados ou vereadores o partido ou coligação elegeu a partir do quociente eleitoral, ou seja, o número total de votos válidos dividido pelo número total de vagas. Isso significa que um deputado pode ser muito votado e, ainda assim, não entrar porque seu partido não recebeu o número suficiente de votos.

Em seguida, verifica-se, em cada partido ou coligação, a colocação dos deputados, do mais para o menos votado. Se o partido ou coligação tem direito a seis vagas a partir do número total de votos recebidos, elegem-se seis candidatos, mesmo que o último deles tenha poucos votos.

Este sistema chama-se "lista aberta", em que o eleitor faz duas escolhas em apenas um voto: qual o partido que deseja que o represente e, dentro deste partido, qual o candidato que condiz com sua opinião.

Para mim, este ainda é o melhor sistema. O que falta é explicar e educar o povo, que acaba por votar em um candidato e eleger outro sem saber que, na verdade, está votando num partido.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O porquê do voto obrigatório

Em época de eleições, é comum uma questão voltar à mesa, instigada por uma suposta incapacidade de escolha da população brasileira: o voto obrigatório. O número de países que adotam esta prática não passa de trinta e algumas democracias consolidadas jamais cogitaram esta hipótese. Então por que no Brasil todos em idade eleitoral são, necessariamente, eleitores perante a lei?

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A primeira questão é cultural: votar não é um direito, é um dever. E não existe a opção para o brasileiro de delegar seu voto como nas assembleias de condomínio. Porque eximir-se de votar é aceitar passivamente a opinião alheia. Mas, e daí? Cada qual é responsável pelas escolhas que faz, certo?

O voto no Brasil deve ser obrigatório, sim, por outros motivos. O ato de votar tem um custo, que pode envolver um dia de trabalho perdido (ou algumas horas), deslocamento, busca de informação sobre candidatos, a obrigação de se ter uma opinião. E esse custo não é igual para todos os eleitores: aqueles que moram em centros urbanos ou muito próximos a sua seção eleitoral; aqueles que são politizados e não precisam de grande esforço para escolher seu candidato; aqueles que não trabalham nos fins de semana e ficam com o domingo livre para gastar meia hora para ir até as urnas – esses estariam sempre se fazendo representar.

Já os demais, que somam grande parte da população brasileira, e que nem sempre têm consciência de que seu voto faz, de fato, diferença, poderiam optar por não votar. Não é que o voto de uma pessoa possa mudar uma eleição, mas indica todo o comportamento de uma classe, significando que, como ele, muitos outros fizeram escolha semelhante.

E, no final, apenas aquela minoria teria voz, defendendo seus interesses (ainda que fossem coletivos) e calando um sem-número de pessoas que estariam cada vez mais longe do processo democrático e menos interessadas nas consequências de suas escolhas políticas.