terça-feira, 16 de março de 2010

Redistribuição

De uma hora para outra, o Rio de Janeiro ficou alguns bilhões de reais por ano mais pobre. A emenda de Ibsen Pinheiro sobre a divisão dos royalties do petróleo equitativamente entre os estados e o Distrito Federal se baseia na igualdade de todas as unidades da federação perante a União. Para ele, "todos os brasileiros pagarão essa conta, como pagaram cada centavo da construção da grandeza da Petrobras ao longo de décadas de produção insuficiente".

Esquece-se que as consequências como a favelização de Macaé, a poluição gerada durante o início da exploração e alguns desastres ecológicos não foram socializados entre estados e Distrito Federal.

Se o litoral é de todos, também o são a terra e o subsolo. O Brasil é o maior produtor de minério de ferro do mundo e os impostos gerados vão para os estados produtores. Somos também o maior produtor de soja e o terceiro maior produtor agrícola do planeta. Que parte dos impostos vai para o Rio de Janeiro?


Se queremos equalizar os estados perante a União, a proposta correta seria centralizar todos os impostos estaduais no Governo Federal e, de lá, redistribuir-se tudo igualmente. A partir daí, poderíamos levar a medida para o microuniverso dos cidadãos comuns e juntar todos a renda num pote e, igualitariamente, dar o mesmo quinhão a todos. Comunismo? Deu errado onde passou. Distribuição de renda deve ser feita com inteligência, seja entre estados ou pessoas.

Pura hipocrisia eleitoral.

Atualização em 17/3/2010: Faltou dizer que, quando acabar o petróleo, ficam as favelas, as estradas destruídas e a poluição. Se o estado não tiver os royalties para lidar com os problemas gerados pela exploração, como minimizar suas consequências?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sobre o jornalismo em São Paulo

Este artigo foi publicado pela revista Comunicação & Política, volume 27, número 2, de maio-agosto de 2009. Nele, proponho um novo método de mensuração do viés dos jornais impressos levando em conta a tendência da reportagem, seu tamanho e o valor do espaço publicitário do jornal.

Medindo o viés da imprensa paulistana, chego a algumas conclusões interessantes. Clique na imagem para ter acesso ao artigo em pdf.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Racismo publicado

Vi isso numa revista estadunidense sobre segurança. É ou não é racismo?


Acho que se fosse aqui, os editores receberiam voz de prisão.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Twitter da Lei Seca

Confesso que tenho dificuldade para compreender a natureza humana em certos aspectos. De todos o problemas causados pelo álcool, o maior é, certamente, o número de acidentes de trânsito provocados por motoristas alcoolizados, que vitima terceiros que nada têm a ver com a atitude irresponsável de alguns.

Segundo dados da prefeitura, a Operação Lei Seca já salvou a vida de mais de 3.700 pessoas. Comparando com estatísticas passadas, o número de mortes caiu em um quarto. Ainda assim, sempre que há uma reportagem acerca do assunto, seguem dezenas de comentários criticando a medida.

A expressão máxima dessa estupidez está no twitter da Lei Seca, através do qual as pessoas avisam onde as blitze estão acontecendo para os motoristas que tenham consumido álcool possam desviar e não correr o risco de ser presos. O criador da página justifica dizendo que é para evitar o engarrafamento consequente: pura hipocrisia.

Apoiar a Lei Seca não é questão de moralidade. É de sobrevivência. Quem já perdeu algum parente ou amigo por causa de álcool no trânsito sabe do que estou falando.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

À mulher de Cabral...

Esta semana foi revelado pela imprensa que o escritório de advocacia de Adriana Ancelmo Cabral, esposa do governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho, cresceu 1.836% desde o início de seu mandato, em 2007. Não bastasse isso, o escritório tem entre seus clientes a concessionária Metrô Rio, que enfrenta graves problemas de funcionamento e não parece estar se importando com isso. Nesse caso, há um claro conflito de interesses que deveria ter levado a advogada a recusar o cliente.

Não posso aqui afirmar que há corrupção ou mesmo trapaça neste caso. Mesmo depois que o governador assinou um decreto que beneficiava diretamente um cliente de sua esposa – isso também pode ser coincidência.

Mas, assim como a mulher de César, a de Cabral deveria demonstrar mais honestidade.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Metralhando o próprio pé

Se tem uma coisa que me preocupa em relação à democracia é um país que não tem oposição. Durante o governo de Fernando Henrique, os três principais partidos da base aliada – PSDB, PMDB e PFL – cartelizaram o Congresso. Isso significa dizer que todas as decisões eram negociadas fora do ambiente público e levadas a votação com tudo decidido, pois a maioria absoluta estava a seu lado. Restava ao PT o direito de espernear inutilmente.

A situação mudou quando Lula foi eleito presidente: sem maioria absoluta, o Governo precisa negociar suas decisões com sua base aliada, com seu próprio partido, e com alguns membros da oposição. Seria muito perigoso o PT dominar o Congresso de tal maneira que não houvesse necessidade de um debate.

Mas o que querem Serra e o PSDB através de seu presidente, Sérgio Guerra? Ao que parece, desejam garantir a vitória de Dilma Roussef no primeiro turno. E, como historicamente a votação para o Legislativo costuma acompanhar a do Executivo, garantir também uma bancada recorde para o Partido dos Trabalhadores.

Guerra afirmou que, se eleito, Serra dará um fim ao Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, por considerar o programa eleitoreiro. Quanto à última afirmação, não discordo, embora ache que mesmo uma obra eleitoreira possa apresentar resultados positivos e agradar a população. Além disso, a situação pode alegar que, além de acabar com o PAC, Serra também acabará com o bolsa-família, um programa que goza de grande popularidade. Sobre chamar Dilma Roussef de mentirosa e dissimulada, o presidente tucano excedeu em muito o seu direito.

Oportunamente, Lula respondeu numa reunião a portas fechadas: "O Sérgio Guerra é um babaca", o que foi prontamente comunicado à imprensa com o claro objetivo de se dar uma resposta ao tucano via discurso indireto.

Serra se queima mais a cada dia. O partido se desgastou com o episódio do mensalão tucano e do mensalão do DEM, seu aliado, e já não pode mais evocar a ética em seu discurso contra o PT. O que sobra para ser atacado, então? Como poderão convencer os eleitores de que existe uma necessidade de mudança?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Isso é uma vergonha

Quem são e o que pensam os respeitados jornalistas brasileiros? A imprensa goza da confiança de mais de 50% da população brasileira, ou seja, para metade da população brasileira, se está publicado, deve ser verdade.

Durante as comemorações de virada de ano, o jornalista Boris Casoy soltou a seguinte frase no jornal da Band, após ser cumprimentado por dois garis: "Que merda... dois lixeiros desejando felicidades... do alto de suas vassouras... dois lixeiros... o mais baixo da escala do trabalho...". Foi traído por sua imprevidência, pois seu microfone estava ligado.

Sinceramente, não sei como se passa em São Paulo, mas no Rio de Janeiro, a Comlurb é um órgão respeitado e os garis não costumam ser somente competentes, mas trabalham sorridentes e bem-humorados e, de certa forma, são correspondidos pela população. Seu salário chega próximo aos mil reais, acima da mais baixa escala – não de trabalho, mas de remuneração –, que é o salário mínimo.

Esse episódio mostrou uma face de Casoy que não é exatamente escondida em seus discursos, um homem amargo e que tem como hábito ser do contra e distorcer fatos, e sua arrogância, visível em seu trabalho, transparece agora em sua vida pessoal. Do alto de sua tribuna, o jornalista mostra o que acha do trabalhador mais simples: um merda.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Só uma dor de cabeça

Dentro de alguns dias, Daniel Dantas não será mais considerado criminoso. O juiz Arnaldo Esteves Lima, do STJ, suspendeu todas as decisões tomadas a partir da operação Satiagraha, inclusive sua condenação. Esse é o primeiro passo para a anulação do processo e a liberação dos US$450 milhões que o banqueiro tem bloqueados nos Estados Unidos.

Dantas foi condenado a dez anos de prisão mais multa de R$12 milhões por corrupção ativa e está envolvido em processos de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Apesar de toda a polêmica gerada pela operação, a atitude da Polícia Federal foi louvável, como vem sendo em suas missões que deixaram de lado criminosos comuns e passaram a atacar as classes mais corruptas e impunes da sociedade. Há algum tempo, quadrilhas de classe média e alta vêm sendo desbaratadas e seus membros presos sem a habitual distinção entre pobres e ricos feita pelas polícias estaduais.

Mas de que isso adianta se, no fim, uma pessoa exerce um poder suficiente para jogar tudo pelo ralo? No final terá sido só uma grande dor de cabeça.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Dubai e as ilhas da fantasia

Dubai não tem petróleo, mas parecia uma terra paradisíaca para os bilionários, principalmente homens de negócio e dos esportes. A explosão imobiliária do emirado atraiu milhares de pessoas, em sua maioria investidores e trabalhadores de multinacionais que foram em busca de dinheiro. Pessoas que antes eram de classe média começaram comprar imóveis ainda em construção.

Ilhas artificiais foram criadas, um complexo chamado "The World" que lembra os filmes futuristas de ficção científica. Um hotel em pleno mar, um complexo imobiliário em forma de palmeiras e uma dívida de quase cem bilhões de dólares foram o resultado desse empreendimento que prometia preparar a região para o futuro.

Esqueceram-se os ricos imigrantes de que se tratava de um emirado com leis rígidas e pouco inteligíveis para nossa cultura ocidental. Depois da crise de 2008, as obras foram paralisadas e quem pôde fugiu de lá deixando para trás carros, imóveis e o sonho da Ilha da Fantasia. Quem não fugiu e não pagou as dívidas foi preso e condendado.



No final de novembro, Dubai anunciou uma moratória de US$59 bilhões. Algo normalmente não tão grave, já que a prática é comum e não costuma acarretar em maiores consequências para os países em longo prazo: eles usam o dinheiro economizado com o não-pagamento da dívida para seu desenvolvimento e a renegociam com um belo desconto, às custas de sua confiabilidade. Mas Dubai não tem indústria. Não tem petróleo. Não tem água. Tem concreto e areia.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A imprensa do Rio

O Rio de Janeiro vai de mal a pior em questão de imprensa. Antes, havia dois grandes jornais com linhas editoriais distintas, O Globo e o Jornal do Brasil. Ainda que ambos tivessem um viés mais direitista, o primeiro era mais dirigido à classe média e o segundo, mais elitista. Para as classes mais baixas, existia O Dia, que foi melhorando de qualidade até o golpe do lançamento do Extra, pela empresa do Roberto Marinho, que era vendido a um preço ridiculamente baixo (R$0,25, se não me engano).

Hoje, não há mais JB. Há, mas não há. Inclusive há boatos de que a edição impressa deixará de circular e o jornal vai ser publicado exclusivamente online. O nível do Dia teve de descer ao do Extra para fazer frente junto ao seu público. Sobrou apenas O Globo.

O que me incomoda no jornal não é somente a linha editorial baseada no denuncismo e na busca pela desordem institucional. É o sensacionalismo, que ultimamente vem se colocando no nível dos programas mais vulgares como o de José Luiz Datena e Wagner Montes. A imagem abaixo é um excerto da edição online de hoje de manhã. Se espremer, sai sangue.